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(pt) Brazil, OSL: Para além das ilusões eleitorais: reorganizar as classes oprimidas e construir o poder popular autogestionário (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Tue, 6 Oct 2026 07:35:42 +0300
1. A crise da estratégia democrático-popular e os limites da via
institucional --- A conjuntura brasileira segue aprofundando as
contradições que atravessam o movimento sindical, popular e estudantil.
Em mais um ciclo eleitoral, volta a ser apresentada como única
alternativa a disputa por governos e instituições do Estado. A
experiência das últimas décadas, entretanto, evidencia os limites da
estratégia democrático-popular, hegemônica em amplos setores da esquerda
e que tem no Partido dos Trabalhadores (PT) sua principal expressão.
Essa estratégia colocou a disputa eleitoral e a gestão do Estado no
centro da atuação política, subordinando progressivamente a organização
popular aos calendários, às alianças e à lógica da institucionalidade
das classes dominantes.
Esse processo foi acompanhado por uma estratégia de conciliação de
classes e pela adaptação às instituições burguesas e burocráticas,
contribuindo para enfraquecer a capacidade independente de organização e
resistência das classes oprimidas. As sucessivas derrotas e ataques -
como as reformas trabalhista e previdenciária, as privatizações, a
precarização dos serviços públicos, a violência contra povos indígenas,
camponeses e moradores das periferias, e a manutenção da dependência e
da subordinação econômica do país - demonstram os limites dessa orientação.
Também se mostrou equivocada a ideia de que a ocupação progressiva das
instituições das classes dominantes pelos setores oprimidos levaria, por
meio de uma acumulação gradual de forças, a uma ruptura sistêmica. A
experiência parece ter produzido, em grande medida, o movimento inverso:
não foram as classes oprimidas que transformaram progressivamente as
instituições burguesas e burocráticas, mas foi a própria
institucionalidade que impôs seus limites, regras e interesses àqueles
que passaram a ocupá-la. Em vez de tornar as instituições mais
socialistas, a integração institucional aproximou setores da esquerda da
lógica do Estado capitalista e, consequentemente, dos interesses das
classes dominantes.
Esse problema não se restringe às organizações diretamente vinculadas à
estratégia democrático-popular. Mesmo organizações socialistas que
partem de estratégias distintas não estão imunes a essa dinâmica. A
hegemonia da lógica institucional e a centralidade adquirida pela
disputa eleitoral exercem uma pressão permanente para que diferentes
organizações reproduzam, ainda que parcialmente, mecanismos de
adaptação, eleitoralismo e subordinação da luta social à
institucionalidade das classes dominantes. Romper com esse ciclo é
condição para reconstruir uma perspectiva independente de organização e
luta.
2. O governo Lula-Alckmin e o rebaixamento da conciliação de classes
É nesse quadro que deve ser compreendida a experiência do governo
Lula-Alckmin. Sua eleição foi apresentada por grande parte da esquerda e
setores do campo progressista como o principal instrumento para
"combater o fascismo", defender a soberania nacional diante do
imperialismo e interromper a ofensiva neoliberal. Entretanto, a
experiência concreta do governo evidencia a permanência de elementos
fundamentais da agenda das classes dominantes.
A política econômica continua subordinada aos interesses do capital
financeiro, enquanto o ajuste fiscal impõe limites aos gastos sociais.
Privatizações, terceirizações e mecanismos de precarização permanecem
presentes, sem que tenha ocorrido uma reversão estrutural das reformas
que atacaram direitos trabalhistas e sociais. O governo administra
contradições reais e implementa políticas distintas da extrema-direita;
contudo, permanece não apenas submetido aos limites estruturais do
sistema capitalista-estatista como, também, incapacitado de avançar em
reformas substanciais.
Dinâmica que se torna ainda mais problemática quando observamos a
atuação dos partidos reformistas e governistas nas instâncias dos
sindicatos e movimentos sociais. As diferentes lutas, greves, ocupações,
mobilizações por moradia e em defesa dos territórios encontram
obstáculos justamente por parte dos setores que priorizam a estabilidade
política do governo e a preservação de sua base institucional em
detrimento da radicalização das mobilizações.
Em uma perspectiva anarquista, esse não é um problema meramente
relacionado às intenções de determinados governantes. O governo
administra o Estado, que permanece sendo um instrumento de manutenção
das relações de poder existentes e um instrumento político cuja natureza
está intrinsecamente vinculada às classes dominantes - é a própria
dinâmica do sistema capitalista-estatista. Esse é o limite estrutural de
qualquer governo, por mais bem-intencionado que seja. Não depositamos
esperança em governos para realizar rupturas capazes de transformar
profundamente a vida das classes oprimidas. As mudanças efetivas - e
mesmo a defesa das conquistas já existentes - dependem da capacidade de
organização e mobilização, com independência de classe, dos
trabalhadores e dos setores mais oprimidos e precarizados.
Isso não significa, porém, indiferença diante da ação dos governos. Ao
contrário: é necessário enfrentar suas políticas quando elas atacam os
interesses das classes oprimidas e, sobretudo, combater qualquer
tentativa de paralisar as lutas sociais em nome da governabilidade. No
caso do atual governo, a retórica é distinta daquela da extrema-direita,
mas determinadas políticas neoliberais continuam impondo custos aos
trabalhadores e à própria sobrevivência da população que depende das
estruturas públicas, como educação e saúde. O problema central,
portanto, é impedir que a expectativa de mudanças pela via institucional
desmobilize as lutas e enfraqueça a capacidade de organização e
resistência independente.
3. A polarização eleitoral e os limites dos projetos em disputa
A polarização eleitoral tende a aprofundar essa dinâmica, ao apresentar
a disputa pelo governo como se ela fosse a única capaz de definir os
rumos fundamentais da sociedade. Os diferentes blocos políticos disputam
a direção do Estado, apresentam discursos e programas distintos e
mobilizam diferentes setores sociais. Ainda assim, permanecem submetidos
aos limites de uma estrutura que possui enorme força para condicionar as
ações políticas, partidárias e eleitorais.
De um lado, setores da extrema-direita defendem abertamente uma agenda
reacionária, neoliberal, punitivista e alinhada aos interesses
imperialistas. De outro, o governo e a frente política que o sustenta
apresentam-se como barreira ao "fascismo", mas mantêm mecanismos de
ajuste fiscal, conciliação rebaixada com o capital financeiro,
terceirizações e privatização de serviços.
Isso não significa afirmar que os diferentes projetos sejam idênticos ou
que suas consequências imediatas sejam indiferentes para os
trabalhadores. Significa reconhecer que a alternativa para as classes
oprimidas não pode se limitar à escolha de qual bloco administrará o
Estado e o próprio capitalismo brasileiro. A polarização, quando
transforma a defesa de um projeto institucional em horizonte
estratégico, tende a recolocar os trabalhadores na condição de
espectadores de uma disputa que deveria ser enfrentada a partir de sua
própria força organizada.
É justamente por isso que é preciso construir uma posição independente
diante do processo eleitoral e dos diferentes projetos que disputam a
administração do Estado e do capitalismo. A tarefa não é escolher qual
projeto institucional administrará a crise permanente, mas fortalecer a
capacidade dos trabalhadores de enfrentá-la pela luta direta.
4. Imperialismo, soberania e internacionalismo
A conjuntura eleitoral de 2026 também está marcada por fortes tensões
internacionais. A ofensiva do governo Donald Trump contra o Brasil,
expressa no tarifaço sobre produtos brasileiros, na evocação discursiva
da Doutrina Monroe e em iniciativas de ingerência sobre a política
brasileira, demonstra que a disputa nacional não pode ser separada das
disputas interimperialistas e da defesa da autodeterminação dos povos.
Ao mesmo tempo, conflitos diplomáticos com governos da região evidenciam
o agravamento das tensões na América Latina. Diante desse cenário, é
necessário rejeitar tanto a subordinação aos interesses do imperialismo
quanto a ideia de que defender a soberania nacional significa apoiar
politicamente qualquer forma de nacionalismo policlassista e/ou o
governo brasileiro.
A soberania que interessa aos trabalhadores é aquela construída pela
capacidade de decisão e organização pelas próprias classes oprimidas, e
não a autonomia dos governos para administrar os interesses das classes
dominantes. Não podemos substituir a solidariedade internacional entre
trabalhadores e povos pela defesa de Estados nacionais.
Essa questão também exige uma crítica ao enquadramento nacionalista
presente em parte das estratégias da esquerda brasileira, sobretudo
quando a conjuntura eleitoral exige respostas rápidas e aparentemente
simples. Quando a tática e o programa subordinam os eixos
internacionalistas a uma conjuntura estritamente nacional, corre-se o
risco de limitar a compreensão da luta de classes aos marcos do
estado-nação e de enfraquecer sua articulação com a dinâmica
internacional do capitalismo e do estatismo.
A exploração capitalista, a ação do imperialismo e as crises econômicas
ultrapassam fronteiras nacionais. Por isso, a denúncia das amarras
imperialistas não pode se limitar à defesa de soluções nacionais. Ela
precisa estar articulada à construção da solidariedade internacional da
classe trabalhadora e à perspectiva de uma transformação revolucionária
em escala internacional.
Ou seja, o internacionalismo não significa ignorar as particularidades
nacionais nem deixar de enfrentar a dominação imperialista sobre o
Brasil. Significa compreender que essa luta está inseparavelmente ligada
à luta dos trabalhadores de outros países contra suas próprias classes
dominantes e contra as estruturas internacionais e transnacionais do
capital. Uma alternativa socialista libertária deve partir das condições
concretas de cada país, mas precisa buscar permanentemente sua
articulação com uma perspectiva internacional de emancipação popular.
5. Precarização e violência
Enquanto a disputa institucional se intensifica, a situação econômica e
social continua produzindo efeitos concretos sobre a maioria da
população. Juros elevados, restrição do crédito, endividamento das
famílias, crescimento das recuperações judiciais e dificuldades
enfrentadas por trabalhadores e pequenos produtores revelam uma
crescente precarização da vida e os limites de uma economia organizada
em função da valorização do capital.
Essas contradições não aparecem apenas nos indicadores econômicos. Elas
se expressam diretamente nas condições de trabalho, no acesso aos
serviços públicos e na dificuldade de milhões de pessoas em garantir
condições mínimas de existência.
No campo e nos territórios indígenas, a violência permanece uma
realidade estrutural. Assassinatos, expulsões, conflitos fundiários e
violações de direitos demonstram que a defesa dos povos originários e
das populações camponesas não pode depender exclusivamente da ação
institucional. Da mesma forma, nas periferias urbanas, a violência
cotidiana é utilizada como justificativa para o fortalecimento de
políticas cada vez mais repressivas.
A crise social, portanto, não produz apenas precarização econômica. Ela
também alimenta mecanismos de controle, criminalização e repressão que
atingem de maneira particularmente intensa os setores mais explorados e
oprimidos.
6. Segurança pública, punitivismo e repressão estatal
É nesse contexto que a segurança pública se tornou um dos principais
terrenos da disputa política. Diante do crescimento da violência,
diferentes projetos apresentam respostas baseadas no fortalecimento do
aparato estatal de "segurança". O governo Lula responde ao problema
principalmente por meio do reforço das estruturas estatais de repressão,
enquanto setores da direita defendem modelos ainda mais autoritários,
inspirados em experiências como a de Nayib Bukele, em El Salvador.
Prisões em massa, ampliação do encarceramento, suspensão de garantias e
utilização das Forças Armadas como instrumento de policiamento são
apresentadas como soluções para combater a violência, intensificada pela
própria dinâmica das instituições do sistema capitalista-estatista.
Essas propostas, entretanto, aprofundam a criminalização da pobreza e
das periferias e fortalecem o aparato repressivo sem enfrentar as raízes
sociais da violência.
Desigualdade, ausência de perspectivas para milhões de jovens, tráfico
de armas e interesses econômicos associados ao narcotráfico não são
enfrentados pelo simples aumento da repressão. Ao contrário, a expansão
do aparato policial e penitenciário tende a aprofundar as condições que
alimentam essa violência.
Portanto, a alternativa não está entre diferentes modelos de
fortalecimento do aparato repressivo. É preciso enfrentar as condições
sociais que produzem a violência e, ao mesmo tempo, combater a
militarização, a criminalização da pobreza e a repressão contra os
setores populares.
7. As lutas sociais e os caminhos da ação direta
Se a via institucional demonstra seus limites, as experiências de luta
dos últimos anos apontam para outro caminho. As mobilizações dos
entregadores, as lutas da educação, as greves e resistências nos
Correios e na Petrobras, as mobilizações por moradia e as lutas dos
povos indígenas e das comunidades ameaçadas de despejo demonstram que
conquistas concretas dependem da capacidade de organização coletiva e da
ação direta dos trabalhadores.
Mesmo quando derrotadas ou parcialmente isoladas, essas mobilizações
revelam a força da solidariedade, da auto-organização e da capacidade
das classes oprimidas de interferirem diretamente na realidade. Elas
também demonstram que existe um conflito crescente entre as necessidades
concretas dos trabalhadores e a tentativa de subordinar suas lutas aos
projetos eleitorais e às necessidades de governabilidade.
Essa experiência é fundamental porque aponta para uma concepção
diferente de transformação social. Em vez de esperar que governos e
instituições burguesas e burocráticas produzam mudanças em nome dos
trabalhadores, trata-se de construir a capacidade dos próprios
trabalhadores e setores populares de lutar, decidir e organizar a vida
social.
A ação direta não deve ser compreendida apenas como uma técnica de
mobilização. Ela expressa uma perspectiva política na qual os sujeitos
da transformação são os próprios setores explorados e oprimidos,
organizados coletivamente e capazes de construir, desde as lutas
concretas, formas de poder independentes do Estado e do capital.
8. A crise da esquerda institucional e das novas lideranças
É justamente nesse ponto que se evidencia a crise das chamadas "novas
lideranças" da esquerda institucional. No passado recente, essa
renovação se dava por setores que surgiam vinculados a movimentos
populares e eram apresentados como alternativas. Entretanto, acabaram,
em diferentes graus, incorporados à lógica da institucionalidade e da
disputa eleitoral.
Esse problema, porém, vai além da simples institucionalização de
lideranças que nasceram das lutas. Em grande parte da esquerda atual, a
própria renovação dos quadros passou a ocorrer segundo a lógica das
redes sociais e dos algoritmos. A visibilidade e a capacidade de
comunicação digital vêm ocupando um espaço que antes era construído pela
experiência organizativa, pelo trabalho de base e pela participação
concreta nas lutas da classe trabalhadora.
Agora, a verborragia que funciona nas redes não necessariamente se
converte em força social organizativa ou em capacidade de radicalização
das lutas concretas. A popularidade digital pode produzir reconhecimento
público, mas não substitui a construção de organizações com presença
permanente nos locais de trabalho, de estudo e de moradia.
Essa contradição aparece quando confrontamos o discurso revolucionário
com a realidade da organização. Fala-se em "revolução brasileira",
ruptura e transformação social, mas pouco se avança na construção de
organizações com capilaridade nas bases, na formação política de
militantes e na capacidade de sustentar lutas prolongadas.
A promessa de renovação política sem ruptura com o eleitoralismo
reproduz, assim, limites já conhecidos. Se antes lideranças forjadas nas
lutas sociais eram progressivamente incorporadas às instituições e
afastavam-se de suas bases, hoje surge também um fenômeno novo:
lideranças formadas desde o início tendo como horizonte a disputa
eleitoral, a visibilidade nas redes e uma espécie de "marketing socialista".
O resultado é uma forma de eleitoralismo que participa da própria
formação das lideranças. Em vez de quadros construídos nas lutas que
posteriormente se institucionalizam, temos personagens políticos
moldados desde sua origem pela necessidade de disputar espaço nas redes
e nas eleições, com o horizonte limitado às instituições burguesas e
burocráticas.
Portanto, o desafio não é simplesmente produzir novas lideranças ou
renovar os nomes da esquerda. É reconstruir as condições para que novos
quadros sejam forjados pela própria luta de classes. Isso significa
recuperar o trabalho de base, a formação militante, a organização nos
locais de trabalho, de estudo e de moradia, assim como a capacidade de
transformar indignação em organização permanente.
Mais do que novas figuras públicas, precisamos construir uma nova
geração de militantes enraizados nas bases, capazes de vincular o
discurso de transformação social à prática concreta da luta classista e
revolucionária.
9. Da crise de organização à reconstrução pela base
A crítica à institucionalização só adquire sentido se estiver vinculada
a uma proposta concreta de reorganização. Não existe uma saída
simplesmente eleitoral para a crise de organização da classe
trabalhadora. A tarefa central, neste momento, é reconstruir uma
perspectiva independente, capaz de organizar trabalhadores e setores
populares a partir de suas necessidades concretas.
Isso exige fortalecer a organização de base, especialmente entre os
setores mais precarizados; reconstruir sindicatos e movimentos sociais
como instrumentos de luta permanente; articular diferentes categorias e
movimentos; desenvolver formas de organização que não estejam
subordinadas a governos, partidos eleitorais ou instituições do Estado.
Essa reconstrução não pode ocorrer apenas por meio de declarações
políticas. Ela precisa ser realizada no cotidiano, nos locais em que a
prática política realmente ocorre, a partir das lutas concretas e das
necessidades que mobilizam os trabalhadores e setores populares.
É nesse terreno que deve ser construída uma nova cultura política: uma
cultura baseada na solidariedade, na democracia direta, na participação
coletiva, na autonomia e na ação direta.
Reorganizar a classe trabalhadora significa, portanto, reconstruir
vínculos, confiança e capacidade de luta. Significa transformar a
indignação dispersa em força social coletiva e fazer com que cada luta
possa contribuir para uma organização mais permanente e consciente.
10. Da descrença nas instituições à construção do poder popular
autogestionário
A crescente descrença nas instituições não deve ser apropriada pela
extrema-direita, que procura transformá-la em autoritarismo, discurso
nacionalista e repressão. Tampouco deve ser canalizada para novas
promessas de renovação eleitoral que preservem as estruturas existentes.
Essa crise de confiança pode adquirir outro significado quando vinculada
à construção de organizações enraizadas no cotidiano. A descrença pode
transformar-se em solidariedade; a indignação, em mobilização; e a
mobilização, em organização coletiva capaz de disputar diretamente as
condições de vida.
A alternativa à política institucional burguesa não é a apatia nem o
autoritarismo. É a construção de formas de poder popular autogestionário
que permitam aos trabalhadores e setores das classes oprimidas intervir
diretamente sobre as decisões que afetam suas próprias vidas.
Esse poder não deve ser compreendido como a conquista do Estado, ou de
algumas posições privilegiadas dentro dele. Trata-se de construir, a
partir das bases, organismos de organização e decisão capazes de
enfrentar o poder do capital e do Estado e, ao mesmo tempo, criar formas
de gestão coletiva da sociedade.
É nessa perspectiva que a autogestão deixa de ser apenas um princípio
abstrato e passa a constituir um horizonte político: a possibilidade de
que aqueles que produzem a riqueza e sustentam a sociedade possam
decidir diretamente sobre sua produção, distribuição e organização.
A construção desse caminho exige reafirmar uma perspectiva classista,
internacionalista e socialista libertária. A defesa dos interesses da
classe trabalhadora precisa unir as lutas contra a dominação
capitalista-estatista às lutas contra todas as formas de dominação e
opressão. É necessário enfrentar o racismo, o patriarcado, a violência
estatal e a destruição ambiental; defender os territórios indígenas e
camponeses; combater todas as formas de exploração e opressão; e
construir uma sociedade na qual as decisões econômicas e políticas
estejam submetidas às necessidades coletivas.
11. Construir a alternativa pela luta
Vivemos um período marcado por turbulências econômicas, ofensiva
imperialista, avanço do autoritarismo, desigualdade e profunda crise de
organização política das classes oprimidas. Nesse cenário, a principal
tarefa dos movimentos populares não é escolher o melhor projeto para
administrar a crise, mas reconstruir a capacidade de luta e do conflito
de classes.
Romper com a institucionalização burguesa e burocrática não significa
abandonar a realidade política ou ignorar os efeitos concretos das
decisões dos governos. Significa deixar de depositar neles o centro de
nossa estratégia. Compreender que cada conquista duradoura depende da
força social organizada daqueles que lutam por ela e que nenhuma
instituição do sistema capitalista-estatista poderá substituir a
capacidade coletiva construída pela própria classe trabalhadora.
O desafio é transformar as lutas fragmentadas em força social
organizada, articular sindicatos, movimentos sociais, organizações
estudantis, coletivos territoriais e demais formas de resistência e
construir uma perspectiva comum a partir das bases. Trata-se de
reconstruir, no cotidiano, a partir de já, uma força social capaz de
enfrentar o capital, o Estado e todas as formas de dominação.
É dessa organização cotidiana, das lutas concretas, da ação direta e da
solidariedade entre os explorados e oprimidos que poderá surgir um
horizonte de transformação social. Um horizonte que não dependa das
ilusões eleitorais nem da substituição de governantes, mas da capacidade
organizada daqueles que produzem a riqueza e sustentam a sociedade de
construir novas formas de poder, baseadas na democracia direta, na
autogestão, no federalismo, na solidariedade e no internacionalismo.
É pela luta e pela organização desde a base que poderemos superar a
desorganização, romper com a institucionalização e construir uma
alternativa socialista libertária.
Organização Socialista Libertária
Setembro de 2026
https://socialismolibertario.net/para-alem-das-ilusoes-eleitorais/
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