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(pt) Spaine, Regeneration: A tirania da falta de teoria - Sobre teoria e ação revolucionária por LIZA (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]

Date Sat, 18 Oct 2025 10:32:33 +0300


Do mito ao drama ---- Na década de 1970, a ativista feminista Jo Freeman publicou seu influente e polêmico ensaio A tirania da falta de estruturas, texto fundamental nos debates sobre organização nos movimentos sociais e libertários. Sua relevância persiste, especialmente quando dinâmicas desorganizadoras desestabilizam espaços combativos e os deixam desarmados e impotentes. ---- Freeman critica a tendência de muitos grupos ativistas de rejeitar estruturas formais por considerá-las hierárquicas e opressivas, na esperança de que a ausência de organização garanta igualdade e horizontalidade. Uma de suas principais contribuições é demonstrar que essa ideia constitui um mito: uma narrativa simplista que ignora a análise crítica e reproduz lugares-comuns com consequências políticas desastrosas.

Na prática, a falta de estrutura não elimina o poder, apenas o oculta. A noção de "grupo sem estrutura" funciona como uma cortina de fumaça que encobre relações de poder informais, facilitando o surgimento de lideranças não eleitas nem fiscalizadas. A ausência de formas organizativas explícitas não impede a criação de estruturas: apenas impede que sejam visíveis, formais e democráticas. Assim, emergem "elites" informais, formadas por quem tem mais tempo, formação, recursos ou habilidades - ou seja, por quem já é favorecido por um sistema profundamente desigual.

O mito da informalidade não apenas cria condições para o surgimento de elites, mas também deixa os grupos vulneráveis à cooptação por organizações maiores e mais estruturadas. Como observa Freeman, "quanto menos estruturado é um grupo, mais vulnerável ele é a ser dirigido por outras organizações políticas". Além disso, a frustração com a ineficácia e o desgaste leva muitos ativistas a integrar espaços tradicionais que oferecem coerência organizativa. Ganharíamos muito se, em vez de arrancar os cabelos e exibir indignação moral no Twitter, analisássemos dessa perspectiva por que tantos companheiros abandonaram as fileiras libertárias em prol de organizações verticais - organizações, afinal de contas.

Diante disso, Freeman defende a necessidade de estruturas explícitas com papéis definidos, mecanismos de avaliação e revogação, distribuição equitativa do trabalho, circulação transparente de informações e reconhecimento de privilégios individuais colocados a serviço coletivo.

Essa abordagem, tão clara e acessível, deveria aplicar-se também à teorização estratégica. Em certos espaços, alguns companheiros - uns por ingenuidade, outros por interesse - implantaram o mito de que prescindir da teoria favorece uma prática política livre de influências externas. Nada mais longe da realidade: sem teoria política explícita e desenvolvida, ideias dominantes, tradições e dogmatismo se impõem sem serem discutidos.

O que é a Teoria de Luta?
É, essencialmente, um guia estratégico baseado em análises sociais e historiográficas. Simples de dizer, complexo de construir. Uma Teoria de Luta - ou, mais ainda, uma Teoria Revolucionária - é o resultado de uma análise consciente do funcionamento do sistema capitalista: seus mecanismos de reprodução, suas falhas estruturais e as possíveis formas de subvertê-lo. Ao mesmo tempo, deve incorporar as lições das lutas emancipadoras do passado.

O objetivo é antecipar, na medida do possível, os cenários e dinâmicas que toda luta deverá enfrentar se quiser avançar rumo à transformação social. Essa teorização não brota de uma abstração erudita e pessoal, mas de uma compreensão histórica e social que se cultiva na própria ação política, no exercício coletivo da luta e no debate honesto.

A capacidade de uma organização de desenvolver sua própria Teoria de Luta é o que realmente lhe confere autonomia estratégica. E se essa teoria é clara e explícita, permite que a adesão de novos membros seja consciente e voluntária; facilita o debate e o desenvolvimento coletivo, e evita que, em momentos decisivos, se aja de forma desesperada ou se caia em dinâmicas conservadoras ou reacionárias.

Não existe organização política sem estrutura. E não existe organização política sem teoria.
Se estrutura e teoria não são formalizadas nem explicitadas - se não se tornam visíveis e compreensíveis para quem milita - o que se estabelece não é um grupo sem estrutura nem uma teoria ausente. O que se impõe é uma estrutura informal e uma teoria implícita, inconsciente e opaca.

Assim como Freeman demonstrou que a informalidade organizativa favorece a liderança oculta de elites não eleitas, o mesmo ocorre com a teoria. Se não é resultado de um processo coletivo, consciente e voluntário, se não surge do debate, da formação e da prática compartilhada, o que prevalece é a reprodução de uma linha política não discutida, imposta por quem tem maior capacidade discursiva, simbólica ou influência. Ou, pior ainda, pelo senso comum - que raramente é revolucionário. Isso leva ao seguidismo, a agir por inércia ou tradição, e a perder militantes - queimados pela impotência política ou absorvidos por organizações que oferecem um horizonte definido.

O surgimento de elites não é consequência do desenvolvimento teórico. É, ao contrário, o efeito lógico de recusar-se a construir conscientemente uma linha própria.

Quem critica a teorização?
Poderia dizer que apenas aqueles com uma atitude condescendente e experiencialista - confortáveis em sua suposta pureza ideológica e na fidelidade acrítica a princípios estáticos - rejeitam o desenvolvimento político. Mas a realidade é mais preocupante, pois esses discursos antiteóricos são lançados ao espaço "público" por quem não está disposto a debater suas posições e prefere consolidá-las tornando-as invisíveis.

Na organização em que milito, mantemos um alerta ativo diante de quem nos convida a agir sem pensar, como se ação e reflexão fossem opostas. Reivindicamos o direito - e a necessidade - de teorizar. Não nos desviamos daquilo que consideramos fundamental, mesmo quando nos ameaçam com sanções, quando dizem que nossa postura não pertence à "nossa tradição" ou nos chamam de pedantes, porque sabemos que não está em jogo nosso ego, mas nossa autonomia.

Não queremos ser guiados pelo pensamento tradicional nem acabar repetindo fórmulas alheias quando se esgotarem os lugares-comuns. Queremos clareza sobre o caminho que trilhamos.

Acreditamos que a melhor homenagem a quem nos precedeu na luta é aprender com seus passos, extrair lições de sua memória e superar os limites que travaram seus avanços. Por isso construímos teoria revolucionária.

Contra o mito antiteórico
Precisamos de uma teoria explícita, construída coletivamente, nascida de uma análise rigorosa da realidade atual e também da memória histórica de nossa classe: uma teoria que se desenterre junto aos ossos de quem lutou antes de nós. Ela não deve ser transmitida informalmente nem por socialização tácita, mas através de processos formativos, com espaços abertos para debate, crítica e confronto honesto. Só assim poderá evitar o dogmatismo estéril e fazer justiça à verdadeira tradição anarquista: aquela que se reinventa e se discute.

Reivindicamos a luta política como confronto de teorias. Dentro do Movimento Libertário, essa disputa também é imprescindível. Combater ideias que empurram a militância e as massas para becos sem saída faz parte do trabalho revolucionário.

Quem afirma que "não é hora de teorizar" está, na realidade, tomando uma posição política. Ao desvalorizar a reflexão, busca orientar a atenção para ações imediatas, afastando assim a possibilidade de um debate amplo e compartilhado. Essa atitude dificulta gravemente a análise coletiva e limita nossa capacidade de participar criticamente.

Quando nos formamos, debatemos, teorizamos ou polemizamos, estamos construindo uma alternativa revolucionária. Não aceitamos a falsa dicotomia entre teoria e ação, entre palavra e prática. Não pensamos em um porão isolado da realidade. Pensamos enquanto agimos e agimos enquanto pensamos. Nossa práxis é reflexiva: analisamos, projetamos, avaliamos e corrigimos.

A atividade política cotidiana não é um obstáculo para a teoria; é sua fonte. Nossa teoria é situada, nasce de baixo, da prática concreta, do terreno que pisamos com outros e do solo que outras já percorreram. O eco desses passos chega até nós por meio de suas histórias, das reflexões que sobreviveram ao fogo e da generosidade de quem hoje ainda lança em voz alta suas ideias para que possamos debatê-las coletivamente.

Não confrontamos ideias por vaidade, mas por responsabilidade e respeito ao processo coletivo. Longe de ser um exercício ególatra, debater e criticar é um ato de honestidade política e autonomia real, de verdadeira humildade. Não lutamos por nossas siglas, não temos bandeiras impressas. Lutamos pelo desenvolvimento político da classe trabalhadora em sua batalha contra quem a explora. Nosso horizonte é um mundo radicalmente diferente. Não vencemos se não vencermos todas. Nossa assinatura não responde à lógica burguesa do prestígio: é um ato de compromisso. Assumimos o que dizemos e fazemos. Nos expomos à crítica e aceitamos o dever de reconsiderar nossas posições quando necessário.

Somos comunistas libertárias e sustentamos as teses plataformistas, não por identidade nem por tradição, mas por coerência estratégica.

Teoria e aderência
Ao movimento libertário nunca faltou vontade, entrega e compromisso, mas sua força foi muitas vezes dobrada pela falta de uma estratégia capaz de consolidar avanços. Mais de uma vez terminamos sendo a ponta de lança a serviço de outros interesses.

Claro que não basta ter uma Teoria Revolucionária. Se as ideias não se encarnam em sujeitos coletivos capazes de levá-las adiante, tornam-se estéreis, mera retórica, palavrório ou poesia. A revolução não é feita pelos anarquistas, é feita pelas massas, e não é possível influenciar seu caminho sem credibilidade diante delas. Essa credibilidade não se conquista por decreto: é o resultado do respeito mútuo.

As organizações revolucionárias não são nada fora da classe trabalhadora. Aderência significa contato real e permanente com as organizações de luta. Supõe que os militantes revolucionários sejam conhecidos e reconhecidos por suas companheiras por terem estado presentes, por terem defendido ideias com a voz e com o corpo, por terem recebido golpes, acertado e falhado, projetado e corrigido, por terem compartilhado alegrias e lutos. Por serem o que são: classe trabalhadora em luta.

Somente essa prática compartilhada confere o reconhecimento necessário para que as companheiras escutem nossas ideias quando mais importa. E só assim será possível hegemonizar, ou seja, empurrar coletivamente na direção mais adequada quando a luta de classes se acelera.

A aderência se constrói com lutas sustentadas e consolidadas em estruturas formais, com coerência entre palavras e atos. Não se trata apenas de falar, mas de estar, de agir. Com honestidade, constância e consequência. O que dá credibilidade às nossas palavras é nosso exemplo de sacrifício e luta. Saber e poder. Construção e orientação. Teoria e aderência. São as duas faces da cunha negra. As duas tarefas, os dois pré-requisitos, de uma Organização Revolucionária Libertária. Nem construir forças para que outros as liderem, nem lançar-nos voluntariosamente para a próxima derrota certa.

Miguel Brea, militante de Liza

https://regeneracionlibertaria.org/2025/10/01/la-tirania-de-la-falta-de-teoria/
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