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(pt) Portugal, Evrora: As origens do anarquismo negro no Brasil (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Thu, 3 Sep 2026 09:50:00 +0300
Uma breve visão histórica da militância anarquista negra no início do
movimento operário brasileiro (1906-1930) --- Carlos Júnior --- Embora
poucas páginas tenham sido dedicadas aos militantes libertários negros
no Brasil, estes estiveram na linha da frente de importantes
acontecimentos e conquistas do movimento operário brasileiro. ---- A
cronologia começaria, sem dúvida, pelo professor, filósofo e jornalista
Antônio Pedro de Figueiredo (1814-1859). Figueiredo fundou a revista O
Progresso (1846-1848), que contava com contributos de outros escritores
que, tal como Figueiredo, foram influenciados pelo socialismo "utópico"
francês.
No Recife, na década de 1840, existia uma pequena colónia de imigrantes
franceses, entre eles o engenheiro socialista Louis Vauthier, que trouxe
vários livros de autores socialistas como Saint-Simon, Owen e Fourier,
para além do já autoproclamado anarquista Proudhon. Em 1849, Figueiredo
condenou a escravatura e a grande propriedade de terras em Pernambuco,
baseando-se na máxima de Proudhon: "destruir o despotismo corporizado na
grande propriedade de terras". Devido às suas ideias socialistas,
Figueiredo sofreu constantes insultos racistas por parte dos seus
opositores.
Os primeiros anarquistas negros começaram a aparecer frequentemente em
jornais e periódicos durante as décadas de 1910 e 1920. Nessa época, o
comunismo libertário de Kropotkin, o sindicalismo revolucionário de
Pouget, a pedagogia de Ferrer e, em certa medida, as ideias de Tolstoi
eram as principais influências sobre os libertários, as associações e os
movimentos grevistas. Fotografias do Primeiro Congresso Operário
Brasileiro (1906), realizado no Rio de Janeiro, mostram que grande parte
dos representantes sindicalistas presentes eram negros.
Delegados no Primeiro Congresso Operário Brasileiro (Wikipedia)
Entre 1917 e 1920, grandes greves gerais com forte influência anarquista
eclodiram por todo o Brasil. As capitais regionais e os centros
industriais do país - Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belém,
Salvador e Recife - tornaram-se epicentros de movimentos que levaram
milhares de trabalhadores às ruas exigindo desde o horário de trabalho
de oito horas e aumentos salariais até ao fim da propriedade privada e à
abolição do Estado.
Membros do Sindicato dos Pedreiros, Carpinteiros e Outros Ofícios, 1919
Recordamos que numerosos anarquistas negros participaram nestas greves e
foram presos, torturados ou mortos: João da Costa Pimenta, Armando
Gomes, Hermogéneo Silva, Custódio Paes, Eustáquio Marinho, Justiniano
Silva, Pedro Lessa, Olímpio Santana, João Lopes, Minervino Oliveira,
Sinval Borges, Cândido Costa, José Argolo, José Leandro, Sebastião
Silva, Tomaz Derliz Borges, Laudelina Silva, Domingos Passos, José da
Silva Gama, Abílio José, José Domiense, Luiz França, Djalma e Cristiano
Fettermann.
Cândido Costa foi um dos anarquistas mais ativos do Rio de Janeiro
durante a década de 1910. As suas palestras anticlericais e libertárias
atraíram centenas de trabalhadores. Participou ainda no Segundo
Congresso Operário (1912). Durante um discurso para os trabalhadores,
Costa foi brutalmente espancado pela polícia e por pessoas que
participavam numa procissão religiosa que passava perto do local do
protesto.
Cândido Costa
O marmorista negro Minervino Oliveira, natural da Baía, mas activo no
Rio de Janeiro, foi um dos principais representantes dos marmoristas.
Participou em diversos protestos laborais e associações libertárias.
Laudelina Silva, costureira, tornou-se um símbolo na luta contra o
racismo, a exploração laboral e a violência sexual. Foi presa enquanto
protestava em frente à casa do seu patrão contra a sua própria demissão
e a das suas colegas. Antes de chamar a polícia, o patrão declarou que
não queria "aquela preta preguiçosa" em frente à sua casa. Laudelina e
as outras trabalhadoras não se deixaram intimidar e continuaram o
protesto até serem conduzidas à esquadra.
Na década de 1910, em Porto Alegre, a capital mais meridional do Brasil,
os irmãos Fettermann foram anarquistas anticlericais, educadores,
sindicalistas e ilegalistas activos durante vários anos. Cristiano
Fettermann publicou artigos no jornal O Exemplo. Os editores do jornal
fundaram uma escola noturna para trabalhadores com o mesmo nome. O
jornal publicou ainda textos do socialista negro Tácito Pires. Djalma
Fettermann trabalhou como jornalista e lecionou francês e português na
Escola Moderna de Porto Alegre. Participou ativamente na Greve de 1917
em Porto Alegre e, segundo alguns historiadores, fabricou bombas que
foram lançadas contra a polícia.
Almerinda Gama (1899-1999)
Em Belém do Pará, no norte do Brasil, os irmãos negros Almerinda Farias
Gama e José Gama destacaram-se como figuras importantes do
anarcossindicalismo. José Gama foi um influente representante sindical
dos tipógrafos. Publicou também artigos em jornais operários de Belém,
como O Semeador. Gama opôs-se ao preconceito racial e à expulsão de
estrangeiros do Brasil. Ao lado de Plácido de Albuquerque, representou
associações operárias no Terceiro Congresso Operário (1920) no Rio de
Janeiro. Almerinda Gama iniciou a sua carreira política como libertária,
dando palestras a tipógrafos na sua própria casa.
Na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, Armando Gomes era um
ferroviário activo tanto como anarquista como membro de associações
negras, como a Liga Humanitária de Homens de Cor, que lutava contra o
preconceito e defendia os direitos dos negros. Em Maceió, Olympio
Santana surgiu como líder anarquista. Pertencia a coletivos anarquistas
da cidade e publicava textos em jornais operários. Luiz França foi outro
militante anarquista negro nascido em Maceió, mas activo no Rio de
Janeiro. No Recife, o estivador libertário Pedro Lessa foi morto pela
polícia durante uma greve portuária. Em Salvador, o Sindicato dos
Pedreiros, Carpinteiros e Outros Ofícios (SPCDC) foi fundado em 1919 por
trabalhadores negros comprometidos com o sindicalismo revolucionário. O
sindicato introduziu várias táticas inéditas na região, como sabotagem,
boicotes e greve geral.
Durante a década de 1920, o anarquismo começou a perder terreno nas
associações operárias, enquanto o comunismo marxista avançava através de
uma campanha agressiva nos sindicatos. Muitos anarquistas tornaram-se
comunistas, sobretudo após a fundação do Partido Comunista Brasileiro
(PCB) (1922). Para além da concorrência do PCB, o anarquismo sofreu
repressão por parte das autoridades estatais. Durante o governo
autoritário do presidente Arthur Bernardes (1922-1926), muitos
opositores foram enviados para a notória colónia penal de Clevelândia,
em Oiapoque, no extremo norte do Brasil. Das 1.500 pessoas para lá
enviadas, metade morreu em menos de dois anos. Muitos anarquistas foram
deportados para este "inferno verde", como ficou conhecido. O ilegalista
negro uruguaio Thomas Derliz Borche e Domingos Passos, um comunista
libertário negro activo no Rio de Janeiro, conseguiram escapar.
Domingos Passos
Passos, neto de antepassados indígenas e negros, foi sem dúvida o
anarquista brasileiro mais perseguido e uma das figuras mais activas no
movimento operário durante a década de 1920. Enquanto muitos anarquistas
desertaram para as fileiras do PCB, o pedreiro e carpinteiro Domingos
Passos defendeu fervorosamente o comunismo libertário em comícios,
greves e associações operárias. Publicou também artigos sobre o
comunismo libertário em jornais operários como Spartacus, Voz do
Trabalhador e A Plebe. Participou em grupos teatrais tanto em São Paulo
como no Rio de Janeiro. Em 1925, Passos foi preso e enviado para
Clevelândia, de onde fugiu atravessando a floresta amazónica até chegar
à Guiana Francesa, depois ao Pará e, finalmente, ao Rio de Janeiro em 1927.
O julgamento do cozinheiro anarquista negro José Leandro, preso em 1921
após uma altercação que resultou na morte de três pessoas - incluindo um
polícia - no Rio de Janeiro, mereceu a atenção dos jornais operários de
todo o Brasil e países vizinhos. O julgamento decorreu em 1924 e
terminou com a absolvição unânime de José Leandro.
Os anarquistas negros também escreviam e organizavam-se através de
periódicos e jornais operários. O jornal anticlerical A Lanterna contava
entre os seus editores o poeta anarquista mestiço Raimundo Reis, também
conhecido por Beato da Silva. Em Porto Alegre, socialistas,
sindicalistas e libertários negros escreviam, editavam e publicavam o
jornal negro O Exemplo. Cristiano Fettermann, por exemplo, publicava
artigos sobre educação. O jornal O Semeador foi publicado por Bruno de
Menezes e Silva Gama, anarquistas negros de Belém do Pará. Pertenciam
também a grupos de propaganda anarquista e lecionavam nas escolas
modernas da cidade. Em Salvador, o jornal Germinal foi fundado em 1919
pelo advogado socialista mestiço Agripino Nazareth, enquanto a Voz do
Trabalhador foi fundada pelo anarco-sindicalista negro Eutachio Marinho.
Gilka Machado (1893-1980)
Na literatura, muitos escritores brasileiros - libertários ou não -
foram influenciados por autores anarquistas como Émile Zola, Guerra
Junqueiro e Liev Tolstói. Raimundo Reis e Adalberto Viana foram poetas
anarquistas negros amplamente publicados em periódicos libertários entre
1910 e 1920. Pereira da Silva foi um poeta influenciado por Tolstoi.
Gilka Machado foi uma escritora famosa no seu tempo, especialmente entre
os trabalhadores e os libertários. A sua poesia era de natureza erótica.
Bruno de Menezes, para além de jornalista, foi também poeta, dedicado às
questões sociais e à cultura afro-brasileira.
Lima Barreto (1881-1922)
Lima Barreto foi um jornalista e escritor negro libertário nascido no
Rio de Janeiro, então capital do Brasil. As suas crónicas permanecem
como uma das maiores fontes para o estudo da Primeira República
Brasileira. Neles, denunciavam o racismo, o militarismo e a hipocrisia
da elite brasileira. Barreto chegou a estar internado em instituições
psiquiátricas, onde escreveu O Cemitério dos Vivos, uma obra autobiográfica.
Traduzido daqui:
https://freedomnews.org.uk/2026/07/23/the-origins-of-black-anarchism-in-brazil/
https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2026/07/23/as-origens-do-anarquismo-negro-no-brasil/#more-27739
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