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(pt) Brazil, CAB: O QUE NÃO ESTAMOS FAZENDO? - CARTA DE OPINIÃO (FAS) - 52 ANOS DO GOLPE MILITAR NO CHILE (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]
Date
Sun, 26 Oct 2025 08:06:23 +0200
O dia 11 de setembro de 1973 marca a data em que o Chile sofreu um golpe
militar. 52 anos depois, entre as ações realizadas para fazer memória
daquele dia e manter viva a história entre as novas gerações, a
Federação Anarquista de Santiago (FAS) publicou uma carta de opinião que
endereça a conjuntura política atual no Chile. Em meio a um exercício de
olhar para o passado e buscar aprendizados pertinentes para o presente,
que permitam construir um futuro diferente e revolucionário, a FAS
oferece uma reflexão crítica que nos parece útil também para pensar a
conjuntura no Brasil.
Assim, como um esforço de aproximação entre temas debatidos nos diversos
territórios latino-americanos, a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)
reproduz a carta de opinião da FAS traduzida ao português. De forma
oportuna, ao considerar que em 11 de setembro de 2025 houve no Brasil a
condenação do genocida Jair Bolsonaro e seus comparsas, o texto nos
conduz a refletir sobre períodos em que a democracia burguesa se coloca
como alternativa mais palatável. Ao mesmo tempo, a leitura nos alerta de
que as instituições da democracia burguesa e os arroubos autoritários de
parcelas da elite política não passam de duas faces de uma mesma moeda,
cujo objetivo é coincidente: manter no poder uma classe dominante de
patrões e empresários as custas do povo oprimido, que vê suas condições
de vida piorarem independente de quem ocupe as cadeiras da corja
institucional do Estado em sua condução do capital.
O QUE NÃO ESTAMOS FAZENDO? Uma importante pergunta após 52 anos do golpe
militar.
Em tempos como esses, é difícil sermos autocríticos e questionarmos o
que não estamos fazendo. Esse exercício da autocrítica parece ser apenas
autoflagelante, com sua única conquista sendo desanimar as companheiras
organizadas, ou até desmotivar algumas, mas acreditamos que estas
reflexões são necessárias para avançarmos naquilo em que acreditamos:
uma vida digna para nossa classe, e quem não se submete a este exercício
avança apenas para a autocomplacência.
Comecemos então com o que estamos fazendo.
Estamos permanentemente atrás da realidade, a acompanhando e
diagnosticando, o que, sem dúvida, é fundamental, mas não suficiente. A
realidade global é um cenário em que os paradigmas impostos na segunda
metade do século XX estão em plena transição. Novas ordens mundiais
estão surgindo, as democracias liberais em sua natureza capitalista
estão dando lugar a estruturas fascistas, conservadoras e autoritárias.
No entanto, isso não significa que os mecanismos de dominação se
transformem necessariamente. A brutalidade do genocídio levado a cabo
pelo Estado israelita, com a cumplicidade direta dos Estados Unidos,
demonstra, em nossa opinião, que a guerra será uma ferramenta que o
capitalismo e o patriarcado continuarão a usar, o que revela pelo menos
duas coisas: o retrocesso civilizacional das sociedades a nível global e
a cumplicidade passiva do resto dos detentores do poder em diferentes
territórios e escalas do mundo. O reordenamento mundial, essa transição
de que falamos, terá como marca o genocídio da população palestina em
Gaza, e o mundo terá que conviver com isso.
A visão global torna inevitável que olhemos para a nossa realidade
próxima. Em um exercício de síntese diagnóstica, talvez a afirmação que
consideramos mais pertinente seja que a democracia (neo)liberal em que
vivemos não está em crise, como muitos dizem, mas sim em processo de
completar sua missão capitalista, algo refletido em diferentes dinâmicas
políticas, sociais e econômicas que se entrelaçam permanentemente.[No
Chile], após os processos de restituição, estabeleceu-se uma restituição
da ordem de dominação que foi questionada em parte pela revolta de 2019
e seus processos anteriores, o que teve que ser necessariamente
acompanhado pela implementação aguda de uma força repressiva estatal,
uma dinâmica social que, por trás da cortina da segurança social, tudo o
que conseguiu foi assassinar e injetar terror na população e minar a
organização social, além de permitir o retorno da naturalização de
discursos de ódio, patriarcais e negacionistas. Observamos com atenção e
estamos em alerta permanente, pois uma expressão de tudo isso é a
disputa aberta pelos espaços comunitários recuperados e ocupados por
organizações sociais, onde as companheiras resistem ao ataque do Estado
e das empresas.
Identificamos também como a dinâmica política convencional produz um
espetáculo midiático, expresso, por exemplo, na disputa eleitoral ou em
alguma manobra parlamentar, que pretende adormecer o conflito de
classes.[No Chile], essa falsa dicotomia entre "esquerda" e "direita" é
apenas a face populista do partido da ordem, com a qual pretendem nos
fazer acreditar que existem diferenças abissais entre essas facções,
sendo o melhor exemplo na conjuntura atual a suposta distância política
entre a candidata do progressismo e da social-democracia, Jara, em
relação a outros personagens nefastos como Kaiser, Kast e Mathei. Na
prática, porém, todos esses conglomerados apostaram em um projeto de
classe, a reprodução de um sistema de dominação capitalista e patriarcal
que se baseia em ideias como xenofobia, individualismo, racismo,
autoritarismo, etc.
O modelo em que vivemos tem uma máquina lubrificada para continuar
reproduzindo o capital, o que, amparado pela legalidade burguesa, nos
mantém submersos em um mundo de consumo, financeirização, exploração
laboral e devastação ecológica (a esse respeito, basta ver como o
partido da ordem legisla sem maior problema a lei de permissões, o que
potencializará a devastação de nossos corpos e territórios).
Entretanto, parece relevante enfatizar a outra economia que esta
democracia promove diariamente, que é a do crime organizado. A fachada
do Estado de direito e a batalha contra o crime organizado está aos
pedaços. A democracia liberal, enquanto Estado e capital, opera num
mercado legal e num mercado ilegal (falando nos seus próprios termos).
Nos dizem que são contra todo o crime organizado, que condenam o tráfico
de drogas, mas o que vemos diariamente nas nossas comunidades é
diferente. Embora o Estado se apresente publicamente como um opositor
ferrenho do crime organizado, a realidade mostra que o próprio modelo de
consumo que promove, acoplado às diversas práticas de corrupção nos
territórios, geram vínculos funcionais com essas estruturas ilícitas. Em
muitos casos, longe de enfrentá-las, essas dinâmicas acabam
transformando o Estado em seu melhor aliado, pois permitem a instalação
de mecanismos de controle social que servem para hostilizar e intimidar
aqueles que se organizam e lutam por uma vida digna. Basta olhar para o
que aconteceu com o caso do "rei de Meigs", caso emblemático da
cumplicidade entre o empresariado, o Estado corrupto, o crime organizado
e o mundo do espetáculo televisivo. A violência, o consumo, a corrupção
estatal e policial são o centro do modelo de livre mercado protegido por
esta democracia liberal.
E agora, o que não estamos fazendo?
A resposta mais simples que podemos dar é que não estamos oferecendo uma
alternativa organizacional que faça sentido para a maioria da população.
O refluxo social e organizacional é tremendo, e aquelas de nós que
continuamos organizadas estamos presas na difícil tarefa de reconfigurar
um cenário de lutas sociais favoráveis. O mais provável é que, na
prática, esteja se construindo uma militância que promova espaços
organizacionais, mas com uma série de limitações e dificuldades. Nesse
sentido, acreditamos que faltam certos impulsos, que tentaremos
descrever a seguir.
O período político nos questiona: estamos preparados para as disputas
políticas que se aproximam? No momento, o mais provável é que a ala mais
à direita do partido da ordem assuma a administração do Estado pelos
próximos quatro anos, o que implicará que o progressismo e a
social-democracia voltarão às ruas, tentando conduzir qualquer expressão
do movimento social, questão que, no cenário de que mantenham a
continuidade do governo, continuarão sendo um obstáculo à luta de
classes, como têm feito até agora. Nesse sentido, propomos que as
organizações que se posicionam do lado revolucionário desenvolvam planos
de luta com o objetivo de criar um povo forte, o que implica retomar e
ser parte ativa das lutas reivindicativas. É inevitável a rearticulação
do movimento dos moradores em luta por moradia e habitação popular, que
coloque à frente um horizonte de confronto contra o Estado burguês e o
empresariado representado pela câmara chilena da construção. Por sua
vez, a luta das trabalhadoras e trabalhadores não pode continuar sendo
consumida pela lógica clientelista ou caudilhista de certos dirigentes.
Os sindicatos devem se levantar em luta, com a necessidade imperiosa de
aproximar a ideia da sindicalização às trabalhadoras e trabalhadores que
até agora acreditam que a melhor forma de resolver seus problemas é
individualmente. A capacidade militante deve se voltar para a criação de
espaços de luta e organização, evitando o isolamento em ações
identitárias, onde cada demanda ao Estado e aos patrões seja feita de
forma confrontadora e política, evitando cair em tecnicismos, pois a
disputa política sempre está à frente da disputa técnica.
Não é apenas fundamental lutar contra o reformismo e seus cantos de
sereia, já que o fascismo avança a cada dia, constrói estruturas
políticas e se configura como um projeto ideológico que faz sentido para
parte da população. Diante disso, torna-se fundamental a batalha das
ideias, onde a agitação e a propaganda se tornam transcendentais. As
ideias que acompanham nossa construção histórica de luta devem ser
acompanhadas por uma reinterpretação ou uma reimaginação do
revolucionário. A revolução política e social precisa voltar a ser uma
ideia possível, uma ideia para impregnar uma vida diferente, uma vida
digna. Contudo, a disputa de ideias não será suficiente neste período, a
menos que consigamos que elas sejam construídas a partir das bases
sociais, ou seja, o protagonismo popular na criação e fortalecimento das
organizações de base são os chamados a produzir e reproduzir os novos
imaginários da revolução.
A partir dessas premissas é possível identificar nossas falhas e
definir, como anarquistas, de que forma avançamos. O apelo é para criar
uma Organização Política Anarquista, onde a unidade tática e ideológica
sejam a base de uma estratégia de ruptura revolucionária que vise a
criação de uma Frente de Classe Oprimida. É preciso retomar a ideia da
militância anarquista, que cria organização onde não há e fortalece as
que já existem. Não nos servem posturas individualistas que não
contribuem para recompor o tecido social, nem experiências
autocomplacentes que sustentam espaços para alimentar os egos dos
convencidos. É necessária uma militância de ação direta, mas que se
dedique a tarefas organizativas, para que todo ataque ao poder seja
cercado de massividade e legitimidade revolucionária.
Dois anos após comemorarmos os 50 anos do golpe civil-militar que deu
início à sangrenta e brutal ditadura na região chilena, acreditamos que
as reflexões que fizemos naquele momento ainda são válidas. Reafirmamos
nossa postura crítica em relação ao governo institucional da UP[Unidad
Popular]e seu projeto de modernização capitalista que impulsionou a
conciliação de classes e o fortalecimento dos mecanismos estatais de
dominação, assim como continuamos reconhecendo e enfatizando os
processos que estavam sendo tecidos a partir das bases sociais, fora das
pautas institucionais burguesas e das direções partidárias. Acreditamos
que foram essas capacidades demonstradas pelas camadas populares e
oprimidas que mobilizaram a conspiração golpista civil e militar.
Olhamos continuamente para o passado, num exercício de memória
permanente contra o esquecimento, o que nos permite identificar com
certeza o que aconteceu e revelar os aprendizados e as sabedorias
práticas, de modo a disputar o presente e construir o futuro.
https://cabanarquista.com.br/o-que-nao-estamos-fazendo-carta-de-opiniao-fas/
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