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(pt) Italy, FAI, Umanita Nova #12-26 - Cuidado com o L.U.P.O. Catania: o Estado despeja, a experiência se multiplica (ca, de, en, it, tr)[traduccion automatica]

Date Sun, 17 May 2026 07:04:37 +0300


Eram 4 da manhã do dia 31 de março e chovia lá fora quando os fantoches do Estado, com seus veículos blindados pintados com a opressão, cercaram e violaram o Laboratorio Urbano Popolare Occupato, o ginásio do L.U.P.O. no coração de Catania. Mais de 11 anos de ocupações por diversos grupos e oito dias de protesto permanente por centenas de pessoas que, ao longo do tempo, demonstraram solidariedade em meio a diferenças, afinidades, erros, vitórias, amor, repressão e lutas. ---- O L.U.P.O. não era apenas um espaço físico ocupado; também poderia constituir um processo de cura. Sim, exatamente, mas não do tipo institucional, medicalizado, imposto de cima para baixo, vendido, composto por drogas psicotrópicas, tratamento médico compulsório ou tratamentos de beleza para se adequar à última tendência capitalista; estamos falando de uma cura radical e compartilhada, enraizada em relacionamentos e valores. Em uma sociedade que sistematizou a exploração performativa, o abandono e a solidão, os espaços autogeridos representam hoje uma contraprática concreta: lugares onde a vida é medida não em termos de produtividade ou velocidade, mas em termos de intensidade, conexão e possibilidade.

Mark Fisher falou da dificuldade de imaginar alternativas ao capitalismo, daquela sensação sufocante em que "não há alternativa" se torna um horizonte mental antes mesmo de se tornar um horizonte econômico, o niilismo que leva a pessoa a se trancar em um refúgio de onde se olha com ódio e medo. Espaços como o L.U.P.O. desafiam precisamente essa prisão perceptiva. Não porque ofereçam um modelo perfeito, mas porque tornam visível, tangível e habitável outra organização da vida. São interrupções do realismo capitalista, fissuras nas quais se experimenta uma sociabilidade não mediada pelo mercado, mas sim por ideais de liberdade e antiautoritarismo. Mas sua força não reside em sua excepcionalidade. Reside em sua natureza fragmentada.

Como sugeriu David Graeber, a anarquia não é um projeto a ser realizado num futuro distante, mas uma constelação de práticas já existentes, disseminadas pelo presente. Fragmentos de autonomia, momentos em que as pessoas decidem se organizar sem hierarquias, sem imposições, sem esperar por autorização. O cuidado, nesse sentido, torna-se o tecido conjuntivo desses fragmentos: o que lhes permite existir, perdurar, transformar-se.

Cuidar, nesses contextos, significa muitas coisas ao mesmo tempo: ouvir, apoiar, compartilhar recursos, criar espaços seguros, lidar com conflitos sem recorrer à autoridade. Significa também falhar, recomeçar, aprender e se reerguer. É uma prática imperfeita, mas viva e humana. E é precisamente essa vitalidade que a torna incompatível com a lógica do lucro e do controle. O capitalismo atual, ao contrário, esvazia o cuidado de seu significado, transformando-o em performance, em trabalho invisível ou mal remunerado, em responsabilidade individual. Ele diz que você deve "se sentir bem", enquanto destrói as condições materiais e relacionais para que isso aconteça. Ela isola, viola, cria precariedade, engana e, em seguida, medicaliza o desconforto que ela mesma produz para depois vender sua cura inútil.

Os espaços autogeridos invertem essa dinâmica. Eles não tratam os sintomas adaptando as pessoas a um mundo doente, mas sim tentam ainda que por breves momentos construir micromundos menos doentes. São laboratórios de possibilidades, mas também refúgios, redes de sobrevivência, lugares onde o fardo da existência é redistribuído. É por isso que são tão assustadores para aqueles que desistiram e para aqueles que querem controlar a vida por obrigação; porque mostram que a dependência das instituições e do mercado não é inevitável, que podemos nos organizar, nos sustentar e viver de outra forma. E cada vez que essa possibilidade se concretiza, torna-se urgente para os que detêm o poder neutralizá-la, eliminá-la, apagá-la.

Mas a cura criada na L.U.P.O. não está contida dentro de suas paredes. Não pode estar. Ela passou pelas pessoas, sedimentou-se nas relações, transformou percepções e desejos. Já está em outros lugares, já está circulando, pronto para ressurgir. E é aí que reside o limite estrutural da repressão e dessas remoções ridículas de espaços ocupados que continuamos a presenciar em ritmo incessante.

Sim, claro, os monstros do capitalismo podem demolir seu próprio concreto com suas máquinas, as casas dos palestinos em Gaza ou na Cisjordânia, ou mesmo um, dois ou cem prédios ocupados aqui, mas não podem desmantelar uma prática que se tornou uma experiência compartilhada nas almas e nos corpos. Podem fechar um lugar com mil barreiras, mas não podem impedir que o que foi aprendido ali seja reproduzido em outros contextos, em outras formas, talvez menos visíveis, mas mais disseminadas.

Lembremo-nos de que a verdadeira ameaça à ordem vigente não é o espaço ocupado em si. É a capacidade que esse espaço tinha de criar autonomia, de ensinar a cooperação, de fazer do cuidado uma responsabilidade coletiva, de gerar vida, igualdade, amor e anarquia. Cada espaço autogerido é um fragmento de outra sociedade. Não uma ilha paradisíaca, mas um campo de testes. Não um modelo a ser replicado, mas uma prática a ser reinventada. E sua multiplicação não segue uma lógica linear: acontece por propagação, por contágio, por desejo, por amor. O L.U.P.O. foi um desses fragmentos. Não o primeiro, nem o último! O L.U.P.O. foi uma brecha no sistema que permitiu enxergar além da escuridão. Agora existem 10, 100, 1000 brechas dentro de cada uma dessas almas, anarquistas ou não, que aprenderam a enxergar através e além da escuridão do nada que avança.

Enquanto houver ao menos uma fissura no asfalto do presente, enquanto houver corpos dispostos a se encontrar fora da lógica do lucro, enquanto o cuidado continuar a ser praticado como um gesto político e coletivo, nenhum despejo fechará verdadeiramente o que já foi aberto.

Nesse sentido, a demolição de espaços ocupados não é necessariamente uma perda: pode também constituir uma inesperada liberação de energia. Não, não é romantismo, é estratégia. Contêineres são quebrados, energias livres são liberadas, energias que talvez tenham permanecido concentradas no abrigo por tempo demais, reprimidas, protegidas, sedadas no conforto de um lugar.

Sua demolição, na verdade, liberou anticorpos para esta sociedade. Anticorpos que funcionam não como uma defesa passiva, mas como uma inteligência disseminada. São práticas, linguagens e atenções aprendidas ao longo do tempo que agora circulam sem um centro, sem muros que as delimitem. Elas se enraízam nos bairros, nas relações cotidianas, nos conflitos, contaminando outros espaços, outras vidas. Não buscam se integrar ao sistema: penetram nele, minando-o por dentro. O que resta depois das escavadeiras é mais perigoso para este sistema doente do que o que existia antes.

Como qualquer organismo vivo, o corpo social nunca é completamente controlável, e esses anticorpos atuam precisamente ali, em suas falhas, impedindo que a dominação se torne total, impedindo que a adaptação se transforme em resignação. São gestos mínimos, porém radicais: uma rede de apoio mútuo que emerge, uma prática compartilhada que se espalha, uma recusa que se torna coletiva, uma prática de escuta sem julgamento. Não fazem barulho como as escavadeiras do poder, mas atuam com o tempo, transformando o que tocam, como água perene. E quanto mais dispersos, mais difícil se torna neutralizá-los, porque não habitam mais um lugar feito de tijolos e argamassa: habitam pessoas.

E quando o cuidado se torna um corpo, uma relação e uma memória compartilhada, não pode mais ser expulso. Torna-se uma presença persistente, uma força que ressurge, se adapta e resiste. Quando o cuidado se dissemina como prática, não pede permissão a nada: transforma, como uma poderosa explosão, tudo o que encontra.

Minha ideia de anarquia (não necessariamente um exemplo) não é feita de barulho, bombas, gritos ou violência; minha ideia de anarquia sussurra em nossos ouvidos. É uma ideia que se multiplica na cumplicidade de olhares gentis e recíprocos, de abraços e ajuda mútua, de práticas de igualdade, mas também de deserção, sabotagem e resistência. Minha anarquia é puro ceticismo que me permite olhar até mesmo para as coisas das quais tenho mais certeza com os olhos de quem sabe que existem milhões de outras possibilidades. Nesta sociedade em transição que normaliza a violência, humaniza monstros e nos isola em nossos medos, o que é mais conflituoso do que a bondade, o amor, a alegria da cumplicidade na batalha? Sou anarquista. Não tenho interesse em matar ninguém, nem mesmo reis ou rainhas; todos já estão mortos dentro de mim. E não me interessa perder tempo gritando insultos para os guardas. Faz tempo que não os vejo. Então, me pergunto qual o sentido de gritar para o vazio, esperando uma resposta? Não seria conflito, mas conluio e emaranhamento.

Hoje, o L.U.P.O. emergiu do concreto, mas agora está nas ruas, está no som disperso daquela bolinha de pingue-pongue nas mesas onde as crianças costumavam brincar (nunca o suficiente), está nas mãos e nos corações de seus camaradas, está em seus poemas de protesto gravados nos muros da cidade.

Concreto é sempre concreto. O L.U.P.O. é livre para se transformar.

Gabriele Cammarata

https://umanitanova.org/attenti-alla-l-u-p-o-catania-lo-stato-sgombera-lesperienza-si-moltiplica/
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