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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - KROPOTKIN E AS ESTRATÉGIAS ANARQUISTAS EDUCACIONISMO, INSURRECIONALISMO E SINDICALISMO REVOLUCIONÁRIO - Felipe Corrêa II. (1/2) (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]

Date Mon, 9 Feb 2026 07:38:35 +0200


Resumo ---- Este texto tem como objetivo expor as posições do clássico anarquista russo Piotr Kropotkin (1842-1921) acerca das estratégias anarquistas e suas posições frente a tal debate. Ele contesta que Kropotkin tenha sido um educacionista/culturalista e que seu "anarcocomunismo" tenha implicado uma ruptura completa com o "bakuninismo" da Internacional. Depois de uma contextualização histórica, que mapeia os grandes debates e dilemas estratégicos do campo operário-socialista e anarquista entre os anos 1880 e 1910, o texto expõe e analisa o pensamento político de Kropotkin. Argumenta que, quando situadas em relação aos grandes debates anarquistas, as posições kropotkinianas são ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas perspectivas. E que elas podem ser associadas ao anarquismo insurrecionalista, mas, principalmente, ao anarquismo de massas - em particular ao sindicalismo revolucionário. Enfim, o texto avança para uma exposição analítica das ideias de Kropotkin sobre o sindicalismo revolucionário e sobre o papel dos anarquistas frente a essa forma revolucionária de sindicalismo.

Palavras chave: Piotr Kropotkin, anarquismo, sindicalismo revolucionário, anarcossindicalismo, syndicalism ---- "É apenas nas grandes massas trabalhadoras[...]
que nossas ideias atingirão seu pleno desenvolvimento". - Piotr Kropotkin

Este texto tem como objetivo expor as posições do clássico anarquista russo Piotr Kropotkin (1842-1921) acerca das estratégias anarquistas e suas posições frente a tal debate. Ele divide-se em quatro grandes partes, que se encadeiam logicamente e permitem subsidiar algumas afirmações mais conclusivas, as quais enuncio nesta introdução e, em seguida, discuto de maneira mais pormenorizada.

Em "Kropotkin, Comunismo Anarquista e Educacionismo" contesto uma "tese" que circula atualmente no Brasil. Buscando suas raízes historiográficas e suas expressões contemporâneas, exponho suas linhas mestras para negar que Kropotkin tenha sido um educacionista/culturalista, e que o "anarcocomunismo" por ele defendido tenha constituído uma ruptura absoluta (ou mesmo um "revisionismo") em relação ao chamado bakuninismo da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT ou "Primeira Internacional").

Em "Movimento Operário-Socialista e Anarquismo" retomo o contexto organizativo em meio ao qual o pensamento político kropotkiniano foi produzido. Isso é feito a partir da discussão dos principais esforços organizativos internacionais que ocorreram ao longo da vida política de Kropotkin, e que se estendem da "Primeira Internacional", fundada em 1864, até a Internacional Sindicalista, fundada entre 1922 e 1923. Nessa contextualização, mapeio os grandes debates e dilemas estratégicos ocorridos entre os anos 1880 e 1910, no campo operário-socialista em geral e anarquista em particular.

Em "Kropotkin e os Grandes Debates Anarquistas" e "Entre o Anarquismo Insurrecionalista e o Anarquismo de Massas" analiso o pensamento político de Kropotkin à luz desses debates e dilemas estratégicos e o situo frente a eles. Discutindo as características fundamentais e as ambiguidades desse pensamento, mostro que, por um lado, as posições de Kropotkin certamente se distanciam do marxismo e se aproximam do anarquismo. Por outro lado, entretanto, evidencio que, quando situadas em relação aos grandes debates anarquistas, as posições kropotkinianas são mais ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas perspectivas.

O principal argumento dessa parte é que, ao passo que Kropotkin tem poucas contribuições que permitem aproximá-lo da "tese" (educacionista/culturalista), ele possui uma produção intelectual considerável que torna possível associá-lo ao anarquismo insurrecionalista, mas, principalmente, ao anarquismo de massas - em particular ao sindicalismo revolucionário. Não se trata aqui de afirmar Kropotkin como um teórico sindicalista revolucionário, mas que parece inegável que, entre 1881 e 1912, ele desenvolveu um conjunto de ideias que possibilitam certa aproximação com o sindicalismo revolucionário.

Em "Kropotkin e o Sindicalismo Revolucionário" exponho justamente aqueles que, a meu ver, são os aspectos mais importantes da visão kropotkiniana desta forma revolucionária de sindicalismo, assim como a perspectiva dos anarquistas em relação a ela. Para estabelecer esse vínculo entre o pensamento político de Kropotkin e o sindicalismo revolucionário foi essencial extrapolar seus livros mais conhecidos e me debruçar sobre um conjunto de artigos escritos em francês e em inglês para a imprensa anarquista entre 1881 e 1912, e que foram reunidos por Iain McKay naquela que considero a melhor antologia de Kropotkin: Direct Struggle Against Capital: A Peter Kropotkin Anthology[Luta Direta Contra o Capital: uma antologia de Piotr Kropotkin](McKay, 2014).

Nesses artigos, Kropotkin defende uma estratégia sindicalista revolucionária (syndicalist) pautada na necessidade de construção de sindicatos massivos, que abarquem todos os setores da classe trabalhadora para a luta econômica imediata contra a exploração capitalista. Sustenta que esse sindicalismo deve funcionar a partir dos pressupostos federalistas e com base nos princípios da ação direta e da prefiguração, e que é possível e necessário, em especial com a participação anarquista, garantir sua radicalização e seu avanço para uma perspectiva revolucionária, de transformação política da sociedade.

KROPOTKIN, COMUNISMO ANARQUISTA E EDUCACIONISMO

A mencionada "tese"1 bebe nas narrativas dos próprios anarquistas, elaboradas desde o século XIX e reproduzidas enfaticamente ao longo século XX, inclusive no Brasil. Mas se consolida apenas com a retomada de parte dos discursos e produções historiográficas anarquistas e com a elaboração, no início dos anos 2000, de uma versão mais radicalizada, que permanece sendo reproduzida por alguns setores do anarquismo brasileiro.

O fato histórico mais importante para a compreensão dessa "tese" é a passagem do coletivismo anarquista (ou "anarcocoletivismo") defendido por Mikhail Bakunin, membros da Aliança e da AIT, para o comunismo anarquista (ou anarcocomunismo) defendido por Kropotkin, Élisée Reclus, Errico Malatesta e outros.2 Esse processo ocorreu no contexto da chamada Internacional Antiautoritária (1872-1877), entre 1874 e 1880. E implicou, em meio a grandes e acalorados debates, uma mudança importante de projeto, naquilo que se referia à forma de distribuição dos frutos do trabalho na sociedade pós-revolucionária - socialista, sem Estado e classes sociais.

De uma parte, os coletivistas consideravam que essa distribuição deveria se dar segundo o princípio "a cada um segundo seu trabalho"; de outra, para os comunistas, ela precisava ocorrer conforme o princípio "a cada um segundo suas necessidades". Posição esta que se consolidou entre os anarquistas europeus em 1880 e, a partir de então, tornou-se hegemônica. (Nettlau, 2008, pp. 180-188).

Tanto os anarquistas, quando a historiografia do anarquismo, consideraram essa passagem do coletivismo ao comunismo um acontecimento central. E praticamente todos, em alguma medida, posicionaram-se sobre o assunto em discussões, artigos de jornal e livros. Dois importantes exemplos podem ser mencionados.

Kropotkin (1946, pp. 419-420), o anarquista mais lido do século XX, em sua autobiografia de 1899 já ressaltava que "quando a Federação Jurassiana3 se declarou ousadamente anarquista-comunista, no seu Congresso de 1880", rompendo com o coletivismo da AIT, "o anarquismo ganhou numerosos partidários na França". Em 1910, no verbete sobre anarquismo que escreveu para a Encyclopaedia Britannica, Kropotkin (1987, p. 30) também enfatizava que, nos anos 1880, "a maioria dos operários anarquistas prefere as ideias anarcocomunistas, que gradualmente evoluíram a partir do coletivismo anarquista da Associação Internacional[dos]Trabalhadores".

Nettlau (2008, p. 188), historiador profundamente influente do anarquismo, em seu livro escrito e publicado entre os anos 1920 e 1930, narrou os principais marcos do debate entre coletivistas e comunistas e concluiu que "essa concepção[anarquista comunista]iniciada em 1876 foi retomada de início pelos italianos, depois se tornou geral na Suíça, na França e na Bélgica a partir de 1880". Nettlau (no prelo) refere-se, o tempo todo, às categorias de "comunistas/comunismo" e "coletivistas/coletivismo" para explicar os debates e posições, e identifica, na Europa, duas grandes correntes anarquistas: a "concepção coletivista" e a "concepção comunista".

Escritos como estes de Kropotkin e Nettlau influenciaram amplamente a militância, a historiografia e as discussões teóricas do anarquismo ao longo do século XX, e continuam a ser marcantes neste início de século XXI. No Brasil, tais posições foram incorporadas, dentre outros, num bom trabalho acadêmico, influente na consolidação da "tese" ao longo dos anos 2000. Trata-se de Presença do Anarquismo no Brasil: um estudo dos episódios literário e educacional (1900-1920), de Flávio V. Luizetto, tese de doutorado apresentada ao Departamento de História da Universidade de São Paulo em 1984. (Luizetto, 1984)

Seu primeiro capítulo, "Apontamentos sobre a história do comunismo libertário", propõe, como sustenta o próprio Luizetto (1984, p. 18), discutir a trajetória desta "corrente" do anarquismo que se vem chamando de comunismo anarquista/ libertário, anarquismo comunista ou anarcocomunismo.4 Nesse capítulo, ele toma como principal referência historiográfica a obra de Max Nettlau. Os clássicos anarquistas mais discutidos por ele são Piotr Kropotkin, Élisée Reclus e, em menor medida, Errico Malatesta - aqueles que, segundo Nettlau, são os maiores representantes dessa "corrente" anarquista.

Para Luizetto (1984, p. 41), o livro A Evolução, a Revolução e o Ideal Anarquista, de Reclus, "contém o essencial daquilo que se pode denominar de teoria do comunismo libertário". Neste livro, Reclus (2002), um ex-communard, ao fazer uma autocrítica da Comuna de Paris, sustenta que as revoluções só podem se levadas a cabo depois de uma evolução social, um crescente movimento de opinião que tem de conquistar os corações e mentes de parte ampla da sociedade.

De modo que a tarefa fundamental dos anarquistas deve ser contribuir com essa mudança, em especial por meio das iniciativas educativas e culturais.

Tal teoria seria complementada, ainda segundo Luizetto (1984, p. 49), pelo livro Apoio Mútuo[Ajuda Mútua, em algumas traduções]: um fator de evolução, de Kropotkin. Neste livro, Kropotkin (2009), no intuito de combater o darwinismo social, mostra, por meio de investigações de comunidades animais e humanas, que também a cooperação é responsável pela evolução. E, desde uma perspectiva evolucionista, sustenta a necessidade da ampla difusão do princípio do apoio mútuo para uma evolução ou progresso mais elevado da humanidade rumo à revolução e à anarquia.

Ainda que relativize tais posições com escritos de Malatesta e algumas posições sindicalistas anarquistas, inclusive as de Kropotkin, a tese promovida por Luizetto (1984, p. 31) é que a Federação Jurassiana, "mesmo não tendo a pretensão de polemizar com as ideias defendidas por Bakunin, significou, na prática, um afastamento da tradição bakuninista". Ruptura que teria se dado em relação às organizações secretas, às concepções ditatoriais, destrutivas e classistas de Bakunin. (Ver também: Luizetto, 1984, pp. 67-70, 81-82)

Entretanto, foi um texto publicado em 2003 que consolidou e difundiu a "tese" nos meios libertários e, em alguma medida, acadêmicos do Brasil. Trata-se da introdução do livro Anarco-Comunismo Italiano, com textos de Malatesta e Luigi Fabbri, organizado pelo coletivo Luta Libertária. Como explicaram em nota, os autores retomaram a estrutura, o argumento e trechos do capítulo de Luizetto, ao produzir "A Corrente Anarco-Comunista: histórico, crítica e permanência". (Luta Libertária, 2003) Ainda assim, vale ressaltar que, neste texto, para o desenvolvimento da "tese", os argumentos de Luizetto foram bastante acentuados.

O Luta Libertária argumenta que "no anarquismo há um antes e um depois do anarcocomunismo, um divisor de águas no pensamento anarquista". Pois o anarcocomunismo teria implicado um "rompimento com o anarquismo bakuninista", em inúmeros aspectos. A ideia sustentada pelo grupo é que a concepção anarcocomunista de "evolução, progresso, revolução, ciência, determinismo, natureza" subsidiou uma perspectiva determinista e evolucionista de mundo, a qual terminou não apenas colocando em segundo plano os aspectos históricos e sociais, mas também promovendo a noção de que "a revolução seria uma tendência natural e inevitável da história". Graças a tal inevitabilidade, a revolução se daria espontaneamente e, portanto, não exigiria a "necessidade de preparação da nova sociedade", "da projeção de formas de organização social" ou de formas de organização anarquista. (Luta Libertária, 2003, pp. 12, 19)

Ainda assim, esse processo revolucionário poderia ser preparado, e mesmo acelerado pela ação humana. Algo que os anarcocomunistas pretendiam fazer "apenas cumprindo o papel de explicar às pessoas o rumo da história, de prepará-las para o que inevitavelmente virá". De modo que "o único espaço deixado para a intervenção dos militantes" anarcocomunistas seria aquele do "campo das ideias". Todos esses militantes teriam em comum "a valorização da propaganda conscientizadora como a estratégia fundamental", e, por meio dela, buscariam "educar as massas de modo a prepará-las para o momento revolucionário". Isso poderia ser confirmado pela frequente utilização que fazem de termos como "convencimento, persuasão, conscientização, ilustração e educação". (Luta Libertária, 2003, pp. 29, 16, 22)

Dessa maneira, os anarcocomunistas teriam adotado uma estratégia que, como no Reclus de A Evolução, a Revolução..., recomendaria, primeiro, transformar as mentes, para, apenas depois, transformar o mundo. Perspectiva que demonstraria a "raiz idealista do anarcocomunismo", segundo a qual "é a ideia que move a história, que gera os fatos". Algo que não apenas refletiria o afastamento entre os anarquistas e os trabalhadores, reforçado pelo contexto posterior à Comuna de Paris, mas que também contribuiria para reforçar este afastamento até fins do século XIX. (Luta Libertária, 2003, pp. 30, 23)

Em alguma medida, esses argumentos do Luta Libertária foram ainda mais radicalizados por uma organização conformada no ano de publicação do livro de Malatesta e Fabbri: a Federação Anarquista Insurreição (FAI), que logo modificaria seu nome para União Popular Anarquista (UNIPA). O ponto de partida mais importante para o desenvolvimento que essa organização fez da "tese" é o texto "A Revolução Social no Brasil", aprovado em seu segundo congresso, em 2004. (UNIPA, 2004) Argumentos desenvolvidos e aprofundados nos anos seguintes, por exemplo, na "Plataforma Internacional do Anarquismo Revolucionário", de 2011. (OPAR/UNIPA, 2011) Com o fim do coletivo Luta Libertária e da Organização Socialista Libertária de São Paulo (OSL-SP) que o sucedeu, tais argumentos encontraram na UNIPA e em seu entorno seus maiores difusores.

Propondo discutir "o anarquismo e sua verdadeira história", a militância da UNIPA considera que, com a derrota da Comuna de Paris, a morte de Bakunin e o fim da AIT, o bakuninismo teria sido caricaturado, desviado e enfrentado pelos anarquistas, ainda no século XIX. Isso teria dado corpo àquilo que a organização chama de "revisionismo", "ecletismo" e "liquidacionismo". O que interessa neste momento é a noção de "revisionismo", a qual considera que o "anarcocomunismo" constituiu uma ruptura - nesse caso, uma revisão - dos pressupostos centrais do "bakuninismo".

Segundo os autores do documento, tal revisionismo, de caráter pequeno-burguês ou mesmo burguês, teria duas matrizes. Uma delas "se origina a partir da revisão dos pressupostos básicos do anarquismo com a introdução da noção de comunismo - em oposição de coletivismo - como eixo do programa anarquista". Algo que teria sido concretizado pela "revisão proposta conjuntamente por Errico Malatesta e Carlos Cafiero no congresso da Internacional Antiautoritária de 1875 e tem em Kropotkin seu principal difusor", mas também em Reclus. (UNIPA, 2004, pp. 15-16)

No limite, esse anarcocomunismo revisionista não seria sequer anarquista, visto que "ataca os fundamentos ideológicos, teóricos, estratégicos e programáticos do anarquismo, inverte seu significado e assim simula reivindicá-los, buscando confundir-se com o anarquismo". Entre outras coisas porque substitui o "classismo proletário anarquista" pelo "educacionismo pequeno-burguês revisionista", subsidiado numa perspectiva "cientifico-evolucionista". Predominante em diversos contextos até 1900, esse revisionismo - cuja versão mais acabada seria "a proposta de 'síntese' elaborada por Vóline e Sebastien Faure na década de 1920" - não teria apenas afastado o anarquismo "da luta e da causa do povo", mas influenciado seu desenvolvimento histórico até o presente, como demonstrariam as posições, autointituladas anarquistas, de "caráter individualista, educacionista e liberal". (UNIPA, 2004, pp. 16-17)

O quadro abaixo resume, em linhas gerais, os aspectos fundamentais da "tese", conforme discutida até aqui:

Quando se analisa o contexto de produção dos textos em questão, é possível fazer alguns comentários. No caso de Luizetto, trata-se de uma produção acadêmica dos anos 1980, quando a discussão e a bibliografia no Brasil eram limitadíssimas. Creio que ele fez o melhor que era possível naquele momento, adotando uma perspectiva interessante, de priorizar, por meio das obras de Nettlau e de outros autores - várias delas em outros idiomas -, a visão do próprio movimento e de sua historiografia sobre si mesmo. Perspectiva que era hegemônica entre os estudos do anarquismo feitos com alguma seriedade, e muitíssimo melhor do que aquela adotada por autores marxistas ou liberais. Mas, como se sabe hoje, apesar de suas imensas qualidades, Nettlau possui também problemas consideráveis, e isso acaba se refletindo no trabalho do autor.5

Nos casos da produção de Luta Libertária e UNIPA, o caso é diferente. Ainda que seus autores reivindiquem certo rigor, não são textos que se pretendem acadêmicos; foram produzidos já nos anos 2000, com bem mais discussão acumulada e bibliografia disponível sobre o tema. Ainda assim, surpreende que os referenciais não sejam muito diferentes daqueles de Luizetto. Ademais, há um fator que contribui para explicar por que os argumentos de Nettlau, Luizetto e outros foram tão acentuados nesses textos. A meu ver não se trata apenas de questões historiográficas e teóricas, mas da intencionalidade político-ideológica desses textos.

Para o Luta Libertária, contou a necessidade de marcar uma ruptura com aquilo que julgavam o passado recente "educacionista/culturalista" do anarquismo brasileiro, que tinha nas palestras e eventos culturais seus principais meios de ação, para promover um anarquismo organizado e inserido nas práticas das lutas populares de massas. Para a UNIPA, foi importante a necessidade de disputar a linha desse "anarquismo organizado" brasileiro, que tomava corpo no Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), fundado em 2002. A organização pretendia, no intuito de alinhar as posições em torno do "bakuninismo" por ela defendido, mostrar os limites e equívocos daquilo que classificou como "revisionismo", "ecletismo" e "liquidacionismo".

É óbvio que toda produção textual, inclusive as acadêmicas, contam com uma perspectiva ideológica norteadora, seja ela declarada ou não. Mas, quando se trata de discutir seriamente um objeto do passado - fazer ciência de maneira rigorosa, seja para subsidiar um projeto político ou não -, é importante ter a precaução de não substituir aquilo que foi por aquilo que se gostaria que tivesse sido.6 E, na minha avaliação, apesar dos méritos que os textos de Luta Libertária e UNIPA possam ter, isso foi feito em vários momentos. Ou seja, na intenção de construir um argumento politicamente útil, ambos, em muitas ocasiões, terminaram por substituir o rigor historiográfico e teórico por afirmações sem respaldo na realidade e generalizações grosseiras.

A seguir, aponto rapidamente aqueles que considero ser os maiores problemas dos textos - e, portanto, da "tese" - em questão.

O primeiro aspecto é a própria divisão das correntes anarquistas. Como argumentei em Bandeira Negra: rediscutindo o anarquismo, foram inúmeras as maneiras que os estudos de referência do anarquismo propuseram para conceituar as correntes anarquistas. E a grande maioria delas é bastante problemática. Por exemplo, quando operam com critérios que se sobrepõem e que são insuficientes para explicar os grandes debates anarquistas.

Conforme sustentei nesse livro, considero que, ao analisar o anarquismo em toda sua história e em perspectiva global, é possível falar em duas correntes anarquistas: o anarquismo de massas e o anarquismo insurrecionalista. Ambas as correntes distinguem-se a partir das posições assumidas frente aos três grandes debates históricos entre anarquistas. Sobre a questão da organização, os anarquistas de massas sustentam uma perspectiva organizacionista (necessidade de organização em nível de massas, político-ideológico anarquista ou ambos) e os anarquistas insurrecionalistas uma perspectiva antiorganizacionista (risco ou irrelevância das organizações estruturadas, e preferência por grupos informais ou atuações individuais).

Sobre a questão das reformas, os primeiros são possibilistas (defendem que as lutas por reformas, ganhos imediatos, são parte importante da luta revolucionária, a depender de como forem levadas a cabo) e os segundos são impossibilistas (contrários às lutas por reformas, ganhos imediatos, entendendo-as como ineficazes ou prejudiciais ao projeto revolucionário anarquista). Sobre a questão da violência, os primeiros sustentam sua necessidade simultânea ou concomitante à construção de movimentos de massas (violência simultânea/derivada) e os segundos consideram que ela funciona como gatilho para a criação de movimentos revolucionários (violência como gatilho). (Para aprofundamentos, ver: Van der Walt, 2016a, pp. 95-97; Corrêa, 2015, pp. 234-248)

Portanto, o comunismo anarquista (ou anarcocomunismo) não constitui uma corrente anarquista, principalmente por três razões: 1.) Porque, desde uma perspectiva global (mundo todo) e de longa duração (1868 ao presente), os debates que envolvem a defesa da autogestão (projeto de sociedade futura) não são os mais importantes. 2.) Porque, nessa mesma perspectiva, o debate entre coletivismo e comunismo como formas de distribuição dos frutos do trabalho não teve grande impacto. Foi marcante na Europa dos anos 1870 até o início do século XX, mas, depois disso, preponderaram amplamente as posições comunistas; aquelas intermediárias, que propunham modelos híbridos, também ganharam certo destaque. 3.) Porque, nessa categoria unem-se anarquistas que, naquilo que há de essencial, são completamente diferentes: por exemplo, Luigi Galleani (antiorganizacionista, impossibilista e partidário da violência como gatilho) com Luigi Fabbri e Nestor Makhno (organizacionistas, possibilistas e partidários da violência concomitante aos movimentos de massa). (Corrêa, 2015, pp. 234-251)

O segundo aspecto tem a ver com a excessiva generalização para a conformação da categoria comunismo anarquista / anarcocomunismo. Considerar que o Reclus de A Evolução, a Revolução..., ou mesmo o Kropotkin de O Apoio Mútuo... constituam os maiores fundamentos de todos aqueles considerados "anarcocomunistas" é um equívoco.

É verdade que os argumentos educacionistas e culturalistas de Reclus aparecem nesse e em outros de seus escritos políticos. Contudo, mesmo nesse escrito, ele defende a greve e a greve geral como ferramentas transformadoras. (Reclus, 2002, pp. 122-123) Num outro texto, ele sustenta que, numa greve, o que mais importa para os grevistas é "tomar, para benefício de todos, toda a propriedade feita para explorá-los". (Reclus, 2020) Também é verdade que tais argumentos conduziram a uma crença de que, passando por uma evolução plena (em termos do convencimento acerca das ideias revolucionárias e anarquistas), os trabalhadores poderiam protagonizar revoluções quase pacíficas ou mesmo pacíficas. (Reclus, 2002, p. 131) Entretanto, Reclus também reconhece, em outros escritos, que, "sem dúvida, o movimento de transformação acarretará violências", e que "nunca qualquer progresso, seja parcial, seja geral, realizou-se por simples evolução pacífica". (Reclus, 2011a, p. 40; 2011b, p. 44)

Ou seja, há, mesmo em Reclus, certas ambiguidades, que permitem pôr em xeque o "tipo ideal" do anarcocomunismo construído na "tese". Ainda assim, é necessário reconhecer certo respaldo às posições da "tese" em distintos momentos da obra reclusiana. Agora, quando se passa a outros "anarcocomunistas", o cerne da "tese" se dissolve completamente. Mesmo que possam, em alguns momentos, dialogar com os argumentos de Reclus, anarquistas como Kropotkin, Malatesta, Fabbri, Cafiero e muitos outros definitivamente não compartilham o conjunto dessas posições educacionistas e culturalistas.

Kropotkin, como pretendo mostrar a seguir, se por um lado possui ideias que reforçam a leitura e a generalização feitas por Luizetto e outros de O Apoio Mútuo... - e, portanto, da "tese" - por outro, tem argumentos que as contrapõem. Malatesta não possui uma leitura biologizante, evolucionista e positivista da sociedade; foi defensor da organização, das lutas por reformas e, em diversos momentos, da ação do movimento operário e dos sindicatos. (Malatesta, 2014a, 2000a, 2000b, 1989, 2014b, 2014c, 2014d) Fabbri, num sentido analítico semelhante ao de Malatesta, também defendeu a organização, assim como as lutas por reformas, greves, movimentos operários, sindicatos, e também uma revolução que se realizasse a partir da ação dos trabalhadores. (Fabbri, 2003a, 2012a, 2012b, 2003b) Cafiero reforçou que os fatos são mais importantes que as ideias e, justamente por isso, uma transformação que não viria apenas das iniciativas educacionais, mas da propaganda pelo fato e, principalmente, dos fatos revolucionários. (Cafiero, 2012a, 2012b)

O que sustento aqui não é que esses e outros "anarcocomunistas" mantiveram todos os fundamentos do "bakuninismo" da AIT. Certamente, quando se realiza uma análise mais pormenorizada de suas obras, é possível notar aproximações e distanciamentos, tanto em relação a Bakunin, quanto a Kropotkin e Reclus, para não falar de outros "bakuninistas" e "anarcocomunistas". Considero, nesse sentido, que não há generalização possível nos termos propostos pela "tese".

O terceiro aspecto refere-se às afirmações sobre Bakunin, os "bakuninistas" e o "bakuninismo". Algumas dessas afirmações são equivocadas e, em certos casos, há generalizações não comprováveis e mesmo certa idealização.

Das afirmações equivocadas destaca-se aquela que, tanto Luizetto (1984, p. 60) quanto Luta Libertária (2003, p. 12), colocam em relação às "organizações secretas" serem um traço central do "bakuninismo". Cumpre notar que, em Bakunin, realmente há o projeto de uma Aliança secreta; mas também é verdade que tal organização estaria articulada com uma Aliança pública e com a Internacional (também pública). De modo que o projeto organizativo de Bakunin não se restringe e nem prioriza as formas secretas e clandestinas de organização em relação às formas públicas, mas as combina. (Corrêa, 2019, pp. 335-346)

Das generalizações e idealizações destaca-se aquela que envolve a própria noção de "bakuninismo", conforme formulada por Luta Libertária e UNIPA. Afinal, quem foram os "bakuninistas"? Quais eram suas concepções teóricas, e em que medidas elas tiveram respaldo na prática? Como sustentei num outro momento, tais questões não possuem respostas mais definitivas até este momento. Por exemplo, não se sabe exatamente quem foram os aliancistas, em que medida eles compartilhavam as posições de Bakunin, e nem se tudo que Bakunin escreveu sobre a Aliança secreta e pública foi ou não colocado em prática. (Corrêa, 2019, p. 336)

É por isso que, desde uma perspectiva teórica e histórica, considero muito difícil, ao menos até este momento, falar na existência de um "bakuninismo" - como conjunto de teorias, práticas e/ou expressão anarquista na AIT. Parece-me que, ao reivindicar esse "bakuninismo", o que faz o Luta Libertária e, especialmente, a UNIPA, é alçar algumas posições teóricas de Bakunin ao nível de um anarquismo supostamente homogêneo dos tempos da Internacional. Algo que entendo como uma idealização de aspectos da teoria bakuniniana que, conforme argumentei, não se sabe exatamente por quem eram defendidos, em que medida eram defendidos e menos ainda se foram ou não incorporados na prática desses militantes.7

Em suma, como afirmei em outros momentos, a pesquisa anarquista, tanto em termos teóricos quanto historiográficos, tem se desenvolvido de maneira mais significativa e de fato apresenta perspectivas animadoras. Mas há, ainda, aspectos fundamentais a serem desenvolvidos, e que exigirão esforços consideráveis. Não devemos investir na elaboração de teses mais gerais sem nos debruçar sobre os casos particulares. E, definitivamente, não se trata aqui de sustentar um particularismo histórico que recusa as generalizações. Mas de entender que as necessárias generalizações (conceitos, teorias, teses etc.) não podem ser feitas de modo arbitrário e/ou abstrato, sem fundamentos historiográficos; tais generalizações, inúmeras vezes importantes ou mesmo imprescindíveis, têm de ser feitas a partir desses fundamentos historiográficos e/ou ser testadas por eles.

Isso vale para teorias sobre a existência de uma corrente anarcocomunista e também de um bakuninismo na Internacional. É ainda fundamental nos debruçarmos de modo aprofundado sobre as contribuições teóricas dos anarquistas e sobre os grandes episódios da história do anarquismo. Assim como ampliar os estudos comparativos e as elaborações mais generalizantes.

MOVIMENTO OPERÁRIO-SOCIALISTA E ANARQUISMO: DA "PRIMEIRA INTERNACIONAL" À INTERNACIONAL SINDICALISTA

Em seu período anarquista, Kropotkin viveu na Rússia e, principalmente, na Europa Ocidental. Naqueles anos, a Europa era palco de grandes disputas no movimento operário e socialista internacional, e também de intensos debates entre os próprios anarquistas. (Berthier, 2015; Skirda, 2002, pp. 32-104) Nas próximas páginas, tais disputas e debates serão mapeados e discutidos à luz dos principais esforços organizativos internacionais do período.

Observando a história da AIT (e da Internacional Antiautoritária) até 1877, é possível compreender como essas disputas foram se consolidando. Como expliquei em Liberdade ou Morte: teoria e prática de Mikhail Bakunin (Corrêa, 2019, pp. 315-387), até a chamada "cisão" de 1872, no Congresso de Haia, os campos em disputa, federalista e centralista, assumem certas características. Os federalistas, preponderantes nas seções, são majoritariamente coletivistas - mudança ocorrida entre 1868 e 1869, quando sucedem os mutualistas -, e dentre os coletivistas, os anarquistas são hegemônicos. Anarquistas que se organizam politicamente (na Aliança) e atuam na Internacional, por meio de uma perspectiva socialista, antiestatista e da promoção das formas revolucionárias e massivas de sindicalismo. Os centralistas, preponderantes no Conselho Geral, são majoritariamente socialdemocratas, apesar de outras posições mais próximas do comunismo, do blanquismo e do trade-unionismo.

São socialistas, estatistas e concentram seus esforços, na maior parte dos casos, na conformação de partidos nacionais com foco nas disputas eleitorais.

Como se sabe, a "cisão" de 1872 - que já se operou num contexto complicado, posterior à Guerra Franco-Prussiana, à Comuna de Paris, com toda a repressão internacional que se seguiu (Musto, 2014, pp. 43-54) - significou, na prática, o fim da Internacional Centralista (ainda que este só tenha sido formalmente declarado em 1876), e o início da Internacional Antiautoritária, legítima continuadora da AIT. (Corrêa, 2015, p. 264; Berthier, 2015, pp. 81-103; Van der Walt, 2016a, p. 87)

Em seus cinco anos de existência (1872-1877), a Internacional Antiautoritária, hegemonicamente federalista-coletivista, também contou com posições que ajudam a compreender as disputas e debates anteriormente mencionados. Sua história se deu num contexto complicado para o movimento operário europeu, marcado pela dura repressão, especialmente na França, na Itália e na Espanha, onde a Internacional foi formalmente proibida; em distintas localidades, os movimentos tiveram de operar clandestinamente, e muitos de seus membros ativos foram perseguidos, presos ou tiveram de se exiliar. (Berthier, 2015, pp. 196-200; Musto, 2014, pp. 52-54)

Aspecto importante nessa trajetória foi o crescimento significativo das perspectivas contrárias à organização, e mesmo antiorganizacionistas, que passaram a ser não só aceitas, mas ativamente defendidas, como reação às práticas centralistas de Marx e do Conselho Geral; expressaram-se vigorosamente desde a "cisão" de 1872 por meio da defesa da completa autonomia das seções. (Skirda, 2002, pp. 33-36)

Além disso, se esta "cisão" já havia separado o Conselho Geral da base da Internacional (Corrêa, 2019, p. 376), e contraposto, em grande medida, autoritários e antiautoritários, a Internacional Antiautoritária terminou de separar, com as defecções e outra cisão, em 1877, os "defensores reformistas do socialismo de Estado e da conquista do poder político" que haviam restado, dos "revolucionários, determinadamente comprometidos com a luta econômica". (Skirda, 2002, p. 38) Apenas os segundos permaneceram na Internacional; terminaram, no fim das contas, por impor seu programa anarquista à associação, "anarquizando" a Internacional, e contribuindo para transformar um organismo de massas, forjado para a luta popular e sindical, num conjunto de grupos anarquistas mal articulados sem base popular significativa. (Berthier, 2015, p. 81; Skirda, 2002, p. 39)

Outro aspecto a ser levado em conta foi o crescimento das perspectivas insurrecionalistas, que, se já estavam presentes nos tempos da AIT - como, por exemplo, no episódio da Comuna de Lyon, em 1870 (Corrêa, 2019, pp. 350-353) -, acabaram avançando bastante com as insurreições na Itália (1874, em Bolonha; 1877, em Benevento), e com as posições assumidas pela militância. (Pernicone, 2009, pp. 90-95, 118-128)

Já em 1876, os internacionalistas italianos defendiam a "propaganda pelo fato", utilizando uma interpretação distinta daquela de Bakunin, quando falava da relevância dos fatos revolucionários. Para eles, as insurreições armadas, mesmo sem base popular, seriam a melhor maneira de difundir o anarquismo; isso não se faria por meio da palavra, mas da ação insurrecional, daquilo que entendiam como fatos revolucionários. Perspectiva que foi assumida por parte importante da militância internacionalista de outros países e que, concretamente, se em alguns poucos casos serviu para mobilizar as massas, na grande maioria deles foi central para intensificar a repressão e para aprofundar a distância entre os anarquistas e os trabalhadores. (Skirda, 2002, pp. 39, 42, 47-50)

Na Europa Ocidental, os anos 1880-1890 abarcaram desdobramentos dessas posições. No campo do movimento operário e socialista, enfrentam-se: perspectivas reformistas e revolucionárias; estratégias de construção de partidos políticos para a disputa de eleições e aquelas de construção de grupos ou sindicatos para a luta fora das instituições do Estado; perspectivas estatistas e antiestatistas; posições que enfatizam, em seus discursos e escritos, a necessidade de transformação, sem fazer muito para que ela se torne realidade, e aquelas que afirmam a necessidade de uma transformação prática, por meio de atos concretos.

No campo do anarquismo - cuja grande maioria de seus membros alinhou-se às segundas posições em detrimento das primeiras - também se enfrentaram posições distintas: perspectivas antiorganizacionistas e organizacionistas, sendo que dentre os organizacionistas se discutiu a melhor maneira de promover a organização; perspectivas insurrecionalistas, de defesa da "propaganda pelo fato" por meio de insurreições armadas sem base popular, e mesmo por atentados individuais, e perspectivas de massas ou sindicalistas, de defesa da propaganda e da organização entre os trabalhadores e a construção de lutas massivas concretas, que poderiam envolver as lutas por ganhos imediatos. De certo modo, tais enfrentamentos e divergências avançaram para as décadas seguintes. (Eckhardt, 2016; Skirda, 2002, pp. 42-70; Nettlau, 2008, no prelo; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 30-39, 73-107, 126-131, 188-190)

Tais posições, ao longo das décadas de 1880 e 1910, refletem, por um lado, as diferenças entre o marxismo (pré-bolchevismo) e o anarquismo; por outro, as diferenças entre os próprios anarquistas. Essas diferenças envolvem, como discutido, os grandes debates que aconteceram ao longo de toda a história do anarquismo, e que distinguiram o anarquismo de massas do anarquismo insurrecionalista.

Nesses anos, os esforços organizativos internacionais levados a cabo pelo movimento operário-socialista e pelos anarquistas passam por esses enfrentamentos e divergências. E, a depender do projeto organizativo e da correlação interna de forças, solucionam-se, temporariamente, em favor de certas posições e em detrimento de outras. Esses esforços envolvem não apenas a continuidade dos debates da Internacional, mas contribuem para que se compreenda o contexto em que Kropotkin estava inserido, e que subsidiou, como pano de fundo, sua produção intelectual.

O Congresso Socialista Revolucionário, ocorrido em Londres, em 1881, e que teve Kropotkin como delegado, deu continuidade aos mencionados enfrentamentos e divergências. Reuniu anarquistas, sindicalistas, comunistas e blanquistas para conceber formas de enfrentar o crescente reformismo socialdemocrata e seus discursos radicalizados sem qualquer respaldo na realidade. (Pateman, 2013/2017; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 30-32) Como contraponto, o congresso defendeu, majoritariamente, a necessidade da ação revolucionária, sendo a propaganda pelo fato ilegal uma ferramenta central. Em sua principal resolução, recomendou "fazer todos os esforços possíveis para propagar, por meio de atos, a ideia revolucionária e o espírito de revolta", sendo para tanto necessário "levar nossa ação para o campo da ilegalidade". Para os congressistas, "o mais simples fato, dirigido contra as instituições atuais, fala melhor às massas do que milhares de impressos e um mar de palavras faladas". De modo que encorajaram "o estudo das ciências técnicas[conhecimento e manejo de armas]e químicas, meios para a defesa e o ataque".8 (Skirda, 2002, p. 47)

Tal deliberação anunciava o fortalecimento da noção de "propaganda pelo fato" em particular, e do insurrecionalismo em geral, que marcaria a posição da maioria dos anarquistas da Europa Ocidental ao longo dos anos 1880 e da primeira metade dos anos 1890.9

Nesse período, o insurrecionalismo foi considerado a principal ferramenta tanto para disputar o movimento operário-socialista com a socialdemocracia quanto para promover a transformação revolucionária da sociedade. Individualmente ou em pequenos grupos, muitos anarquistas protagonizaram episódios de violência política, que incluíram atentados a bomba, armas de fogo e outros artefatos, buscando a eliminação física ou o ataque de seus inimigos. Inspiraram-se em ações semelhantes realizadas por militantes de outras correntes, dentre as quais o assassinato do czar Alexandre II na Rússia. (Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 30-39, 73-107, 126-131, 188-190; Skirda, 2002, pp. 42-59; Joll, 1970, pp. 135-172)

Contudo, esses esforços anarquistas foram completamente insuficientes para conter o crescimento da socialdemocracia. A bem da verdade, o insurrecionalismo terminou contribuindo consideravelmente para o aprofundamento daquela distância entre os anarquistas e as massas, já significativa nos últimos anos da Internacional Antiautoritária. E, com isso, mesmo que num sentido contrário ao pretendido, abriu mais espaço para a socialdemocracia, cuja força potencializou-se ainda mais com a fundação da Internacional Socialista (ou "Segunda Internacional"), em 1889, depois de um conjunto conferências.

Nessa associação, que durou até a Primeira Guerra Mundial, as disputas da "Primeira Internacional" foram retomadas, juntamente com os conflitos interiores à própria socialdemocracia, como aquele entre possibilistas e marxistas.10 (Cole, 1959, vols. III e IV) Desde o início da Internacional Socialista, como raramente se recorda, os anarquistas se fizeram presentes, disputando os rumos da associação; permaneceram até 1896, quando foram expulsos, garantindo a hegemonia socialdemocrata. Ainda assim, militantes e iniciativas sindicalistas revolucionários continuaram participar da associação, em distintos países, até sua extinção em 1916. (Turcato, 2010; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 34-39)

Até o Congresso de Mainnheim, em 1906, a "Segunda Internacional" desprezou os sindicatos, as greves e a ideia de greve geral; priorizou enfaticamente as disputas político-partidárias. Depois disso, passou a reconhecer neles alguma importância, mas recomendando que fossem utilizados em função do crescimento parlamentar socialdemocrata. (Kropotkin, 2014m, p. 383)

Quase concomitantemente à mencionada expulsão dos anarquistas, era fundada, em 1895, na França, a Confederação Geral do Trabalho (CGT), organização sindicalista revolucionária que contava com a ampla participação anarquista. Manteve-se, até a Primeira Guerra, como referência do sindicalismo revolucionário europeu, exercendo enorme influência, não apenas no movimento operário-socialista da França, mas de vários outros países da Europa, como Itália, Espanha, Alemanha, Suécia, Portugal.

A CGT também influenciou diversos países hispano-lusófonos fora da Europa, como no caso do próprio Brasil.

Aprovada no congresso da CGT de 1906, a "Carta de Amiens" reivindicava e recomendava a luta sindical de massas com o duplo objetivo de defender as exigências imediatas dos trabalhadores, como a diminuição da jornada de trabalho e o aumento de salários, e de sustentar uma transformação revolucionária da sociedade, empreendendo uma reorganização social baseada nos próprios sindicatos. Propunha fazer isso por meio da luta de classes com independência dos partidos políticos e por meio da ação direta.

O sindicalismo revolucionário da CGT também exerceu ampla influência entre os anarquistas e foi central, tanto para tornar esta forma de sindicalismo a principal força de oposição à socialdemocracia no campo socialista, quanto para alterar a correlação de forças dentro do próprio campo anarquista. Somando-se às iniciativas revolucionárias e sindicalistas anteriores à sua fundação, e reforçando a crítica às ações de "propaganda pelo fato", a CGT - por suas concepções e, principalmente, pelas lutas e ações práticas que levou a cabo - foi peça central para que o anarquismo insurrecionalista voltasse a ser minoritário na Europa e o anarquismo de massas, sindicalista especialmente, se tornasse majoritário, posição que se manteria nas próximas décadas. (Skirda, 2002, pp. 60-79; Nettlau, no prelo; Woodcock, 2002, vol. 2, pp. 103-111, 197-198, 132-134, 243-244; Samis, 2004, p. 134; Van der Walt, 2016b)

Essas posições pautaram os debates do Congresso Anarquista, realizado em Amsterdã, em 1907. Retornaram com força as questões da organização anarquista e das relações entre anarquismo, movimento operário e sindicalismo. E continuaram a preponderar as posições organizacionistas e aquelas que consideravam imprescindível a reaproximação entre os anarquistas e as massas trabalhadoras. (Antonioli, 2009) Junto a um considerável crescimento das organizações sindicalistas revolucionárias e anarcossindicalistas, essas posições também pautaram, foram reforçadas e desenvolvidas no Congresso Sindicalista de Londres, em 1913, cujos esforços foram interrompidos com a eclosão da Primeira Guerra. (Thorpe, 1978)

Enfim, cumpre ainda mencionar que organizações sindicalistas revolucionárias e anarcossindicalistas tiveram participação no início da Internacional Comunista (ou "Terceira Internacional"), fundada em 1919. No entanto, apesar da proximidade com os revolucionários bolcheviques no enfrentamento aos reformistas socialdemocratas, a trajetória da Revolução Russa - na qual os bolcheviques foram se tornando hegemônicos, acabando com a revolução e reprimindo os anarquistas e outros trabalhadores - e o papel assumido pelo PC Russo no COMINTERN e no PROFINTERN - subordinando progressivamente as lutas e movimentos sindicais aos seus interesses autoritários e contrarrevolucionários - implicaram a decisão, por parte dos antiautoritários, de saírem para criar uma nova Internacional Sindicalista, processo que se concretizou na passagem de 1922 para 1923, e que contou com a participação de muitos anarquistas. (Thorpe, 1989; De Jong, 2004)

KROPOTKIN E OS GRANDES DEBATES ANARQUISTAS

Kropotkin - desde sua conversão ao anarquismo, que se deu no contato com a Federação Jurassiana da AIT em 1872 (Kropotkin, 1946, p. 273), até sua morte em 1921, na Rússia (McKay, 2014, p. 93) - acompanhou tais esforços organizativos, com maior ou menor proximidade, a depender do caso. Quando se observam suas posições frente a esses acontecimentos, e a maneira que ele se posicionou frente ao conjunto de debates anteriormente elencados, é possível avançar na compreensão de suas concepções político-ideológicas e estratégicas, de certos traços de seu anarquismo.

De maneira geral, durante essas quase cinco décadas, Kropotkin contrapôs-se às perspectivas estatistas, reformistas e às propostas de construção de partidos políticos para disputas eleitorais - as quais eram então encampadas pela quase totalidade do marxismo, na crescente forma da socialdemocracia. Reivindicou, distintamente, as perspectivas antiestatistas, revolucionárias e de construção de grupos ou sindicatos para a luta fora (e contra) as instituições do Estado - as quais eram sustentadas pelo anarquismo.11 Esse anarquismo kropotkiniano pode ser conhecido, em grandes linhas, em seus livros mais difundidos, como Palavras de um Revoltado (1885), A Conquista do Pão (1892) e A Ciência Moderna e o Anarquismo (1901-1913)12. (Kropotkin, 2005a, 1975, 1964; McKay, 2021, pp. 22-24)

Entretanto, quando se trata de avaliar como Kropotkin se posicionou entre 1872 e 1921 sobre os grandes debates anarquistas, suas posições são mais ambíguas, de diálogo ou mesmo adesão a distintas perspectivas. Aspecto importante a ser destacado é que, para conhecer de maneira mais precisa as posições estratégicas de Kropotkin - ou seja, como ele entendia ser mais adequado promover uma transformação revolucionária, que pudesse superar a sociedade capitalista e estabelecer a anarquia socialista - é essencial ir além de seus livros, que incluem, além daqueles já mencionados, Apoio Mútuo: um fator de evolução e Campos, Fábricas e Oficinas. (Kropotkin, 2009, 1998a)

McKay (2021, p. 22) notou acertadamente que, "para entender como Kropotkin via a anarquia sendo atingida, precisamos retornar aos artigos que ele redigiu para a imprensa anarquista e que foram mais tarde reunidos em livros". Artigos estes que são pouco conhecidos, e dentre os quais se encontram aqueles que foram incluídos pelo próprio McKay no já livro citado Luta Direta Contra o Capital (McKay, 2014).

De modo que é possível afirmar que, de uma parte, os temas estratégicos estão muito pouco presentes nas principais obras de Kropotkin; de outra, quando analisamos esses temas, notam-se as mencionadas ambiguidades e adesões diversas. Isso parece ter algumas explicações; parece, pois, para uma resposta mais definitiva - como aquela que dei sobre Bakunin (Corrêa, 2019) -, é necessário uma analise aprofundada de toda sua obra e de seus principais comentadores, algo que não fiz e nem pretendi fazer neste escrito. Por isso, tanto essa constatação das ambiguidades e adesões diversas de Kropotkin em termos estratégicos, quando suas explicações devem ser consideradas hipóteses, que precisarão ser mais profundamente discutidas. Aparentemente, essas explicações são três.

Primeiro, os rumos assumidos pelos anarquistas europeus e norte-americanos no período em questão, certamente influenciados pela conjuntura política e pelas experiências concretas que protagonizaram e das quais participaram. E, assim, as mudanças de posição coletivas frente aos grandes debates anarquistas e às variadas preponderâncias do anarquismo insurrecionalista e do anarquismo de massas. Segundo, a posição de influente jornalista que Kropotkin assumiu naquilo que se chamou "movimento anarquista".

Em importantes periódicos como Le Révolté, La Révolte, Les Temps Nouveaux e Freedom, com os quais frequentemente contribuiu, ele possivelmente abriu espaço para distintas posições do "movimento" e manifestou-se de maneiras distintas frente aos grandes debates e correntes do anarquismo; a depender do momento, sustentou posições mais ou menos próximas daquelas do "movimento". Terceiro, a aparente crença de que certa heterogeneidade de meios poderia, de algum modo, fazer avançar os fins pretendidos. Ou seja, mesmo que conservando certas preferências, Kropotkin parece ter concordado que, em alguma medida, tudo aquilo que fosse feito no sentido do socialismo anarquista poderia contribuir com a sua chegada.

Numa análise do pensamento político de Kropotkin constata-se que há, em suas posições filosóficas e teóricas, alguma proximidade com a caracterização dos autores da "tese". Entretanto, quando se observam suas posições frente ao debate das estratégias anarquistas, constata-se que, a depender do momento e do texto em questão, Kropotkin tem aproximações com o anarquismo insurrecionalista e, principalmente, com o anarquismo de massas.

Não há dúvida que, em geral, o pensamento político de Kropotkin foi marcado por aspectos do positivismo, do determinismo biológico e do cientificismo, como se evidencia em sua noção mesma de "anarquismo científico". Em A Ciência Moderna e o Anarquismo, por exemplo, ele afirma que o anarquismo é uma concepção do universo baseada na interpretação mecânica dos fenômenos da natureza, compreendendo nesta igualmente os fenômenos da vida social e seus múltiplos problemas de ordem econômica, moral e política. Seu método de análise e de investigação é o das ciências naturais. (Kropotkin, 1964, p. 80)

Para Kropotkin, esse método é o "método naturalista", o "método indutivo-dedutivo, único[método]científico conhecido"; bem diferente daquilo que ele considera a abstração anticientífica do método dialético. Nesse quadro de referência de investigação, a humanidade é considerada parte da natureza, e, tendo em vista o sucesso do método naturalista para o estudo dos fenômenos da natureza não humana, pareceria adequado pautar-se nesses mesmos fundamentos para a investigação da sociedade.

Por meio desse método, subsidiado na "filosofia materialista (mecânica, ou melhor, cinética)", seria possível "expor e compreender, à luz meridiana dos fatos positivos" os fenômenos da natureza em geral, e da sociedade em particular. Esse método, eficazmente comprovado nas ciências da natureza, permitiria proceder "passando da flor ao homem, de uma comunidade de castores às populosas cidades humanas", e chegar a uma compreensão adequada dos "fenômenos da vida, da inteligência, das emoções e das paixões", os quais "podem reduzir-se a fenômenos físicos e químicos", e também das "leis que os regem". (Kropotkin, 1964, pp. 81-82)

Também não há dúvida que Kropotkin sustentou uma noção em certa medida evolucionista da sociedade. Para ele, ainda em A Ciência Moderna e o Anarquismo, o próprio anarquismo contém em si um "prognóstico certo dos aspectos da marcha futura da humanidade para a liberdade, a igualdade e a fraternidade". (Kropotkin, 1964, p. 170) Prognóstico que asseverava - em escritos como "Fatalidade da Revolução", sem data conhecida, e "A Anarquia, sua Filosofia, seu Ideal", de 1896 - que "a revolução é inevitável", um "fato incontestável", um "fato matemático", que garantiria o progresso necessário da sociedade. (Kropotkin, 2007a, pp. 42-43; 2000, pp. 40, 67)

Curiosamente, como não raro acontece com inúmeros pensadores clássicos, tais posições não são exatamente encontradas em suas obras historiográficas. O caso mais evidente é A Grande Revolução (1789-1793), de 1893, "uma das melhores abordagens da Revolução[Francesa]", que constitui "um clássico exemplo de história social, de uma história vista de baixo que enfatiza as ações das massas para impulsionar a revolução". (McKay, 2014, p. 90)

Nesse estudo de Kropotkin, há aspectos teórico-metodológicos embutidos, e mesmo uma teoria da história, ambos os quais não usufruem dos pressupostos teórico-filosóficos anteriormente mencionados. (Kropotkin, 2021) Além disso, em inúmeros outros momentos, ele não deixou de reconhecer que a propaganda e a ação anarquistas poderiam contribuir para acelerar esse processo evolutivo. (Kropotkin, 2007a, p. 42; Cahm, 1989, p. 92)

Agora, quando se trata de discutir a perspectiva classista de Kropotkin, tanto na análise da sociedade quanto nas posições estratégicas, com toda certeza não é verdade que ele tenha rompido com o classismo anarquista. Certamente ele possui escritos - possivelmente o mais conhecido, inclusive citado pelos autores da "tese", é "Aos Jovens" (Kropotkin, 2005b) - que estimulam membros das classes dominantes a abandonar suas fileiras e unirem-se aos operários e camponeses na sua luta emancipatória. Afinal, essa foi sua própria escolha de vida, como a de Bakunin e de outros anarquistas.

No entanto, essa posição se dá justamente no quadro de uma interpretação da sociedade em que as classes sociais são elementos centrais, e, também, de uma perspectiva estratégica que considera os trabalhadores em geral, e os operários e camponeses em particular, imprescindíveis para uma transformação social revolucionária. Em "Comunismo e Anarquia", de 1901, Kropotkin enfatiza que "a sociedade burguesa atual permanece certamente dividida em classes", a "classe de burgueses" e a "classe operária". (Kropotkin, 2007b, p. 130). Em A Grande Revolução (1789-1793), a principal tese formulada por Kropotkin (2021) é que a Revolução Francesa não foi apenas uma revolução burguesa, um enfrentamento entre a burguesia e a nobreza; conforme demonstra de maneira brilhante, o povo francês, com especial destaque para o campesinato, foi central nas lutas e no próprio processo de mudança social.

Estrategicamente, a posição constantemente assumida por Kropotkin foi a de luta revolucionária dos trabalhadores (operários e camponeses) contra capitalistas. Em 1881, no artigo "Les Ennemis du Peuple"[Os Inimigos do Povo], ele afirmou ser indispensável "organizar as forças dos trabalhadores" para lutar contra o capital. (Kropotkin, 2014a, p. 294) Em 1906, em "A Revolução Russa e o Anarquismo", defendeu que os anarquistas deveriam "transformar os sindicatos de operários e camponeses numa força que poderia iniciar[...]uma expropriação de massas bem planejada". (Kropotkin, 2014u, p. 469) Em 1907, no texto "Les Anarchistes et les Syndicats"[Anarquistas e Sindicatos], sustentou que suas ideias sempre se mantiveram as mesmas: "as organizações de trabalhadores são a força real capaz de realizar a revolução social". (Kropotkin, 2014o, p. 391). E, no ano seguinte, numa carta a Alexander Berkman, colocou: "são as classes que fazem as revoluções - não os indivíduos". (Kropotkin, 2014q, p. 402)

Quando se investigam as posições de Kropotkin assumidas no debate organizativo, também é possível se encontrar afirmações dúbias e, em certa medida, contrastantes. Em alguns momentos, Kropotkin subsidia, ou parece subsidiar (por meio de deduções lógicas daquilo que escreve), perspectivas mais espontaneístas, que abrem mão da necessidade de uma organização estruturada (tanto de trabalhadores quanto dos próprios anarquistas) para promover a revolução e a reestruturação da nova sociedade. Perspectivas não tão comuns, mas que parecem derivar de suas concepções deterministas e fatalistas, assim como de sua visão bastante otimista do ser humano, que se mostra evidente em escritos como A Conquista do Pão, de 1906. (Kropotkin, 1975)

Nessa direção, Kropotkin colocou - no artigo "What Revolution Means"[O que Significa a Revolução], de 1886 - que uma revolução não aconteceria "se cada parte do território, não estivesse ocorrendo uma demolição espontânea das instituições econômicas e políticas decadentes", se trabalhadores (operários e camponeses) não estivessem se insurgindo espontaneamente há certo tempo. E que a "reorganização da produção, da redistribuição de riquezas e das trocas" teria de ser levada a cabo "pelo crescimento natural resultante dos esforços combinados de todos os interessados"; ou seja, "essa remodelação será resultado das inúmeras ações espontâneas de milhões de indivíduos".13 (Kropotkin, 2014s, pp. 534-535) Além disso, em diversos momentos, ele demonstrou "compromisso com os atos de revolta abnegados, tanto individuais quanto coletivos", que, sendo levados a cabo espontaneamente, seriam importantes em um movimento revolucionário mais amplo. (Cahm, 1989, p. 121)

Ao mesmo tempo, é importante notar que, para Kropotkin, realmente, as ideias possuem grande capacidade de estimular a ação humana. E, sem dúvida, esta constitui um elemento central para a transformação da sociedade. Ao que parece, ele considera que as ideias são tão importantes quanto os fatos, ou, mais especificamente, que de certo modo as ideias também são fatos. Não se trata, portanto, de assumir um idealismo em que as ideias preponderam sobre ou mesmo substituem os fatos.

Em tal direção, Kropotkin defendeu em inúmeras ocasiões a necessidade de que socialistas em geral e anarquistas em particular difundissem suas ideias entre as massas trabalhadoras, que investissem fortemente na conscientização dessas massas, algo que seria elemento chave no processo transformador. Num conjunto de artigos escritos em 1891 e publicados em 1914 sob o título "A Ação Anarquista na Revolução", ele afirma:

É preciso que as novas ideias - aquelas que marcarão um novo ponto de partida na história da civilização - sejam esboçadas antes da revolução; que elas sejam fortemente disseminadas nas massas, a fim de que possam ser ali submetidas à crítica dos espíritos práticos e, até certo ponto, à verificação experimental. É preciso que as ideias germinadas antes da revolução sejam bastante disseminadas para que um certo número de espíritos sintam-se acostumados a elas. É preciso que estas palavras: "anarquia", "abolição do Estado", "livre entendimento dos grupamentos operários e das comunas", "comuna comunista", tornem-se familiares, bastante familiares para que as minorias inteligentes busquem aprofundá-las. (Kropotkin, 2007c, pp. 121-122)

Tal noção subsidiou parte importante dos escritos de Kropotkin. Foi bem mais constante que a noção de que os anarquistas deveriam educar, instruir ou ilustrar os trabalhadores, a qual parece ter se manifestado apenas algumas vezes, em escritos como "Local Action"[Ação Local], de 1887. Ali, Kropotkin (1998b, p. 44) ressaltou ser natural aos socialistas buscarem "despertar em toda parte[...]a consciência das massas" e "esclarecê-las[enlighten them]sobre os efeitos negativos da monopolização presente da terra e do capital".

Graças a esse foco na difusão de ideias e conscientização dos trabalhadores, obviamente a propaganda assumiu papel importante na estratégia kropotkiniana. Algo que se manteve desde seus tempos de Círculo Tchaikovsky - quando, já anarquista, dedicou-se, entre 1872 e 1874, junto aos populistas, à propaganda revolucionária entre camponeses e operários russos - até o final de sua vida. Levando em conta que "o socialismo[...]era apenas uma expressão das aspirações das massas", para Kropotkin, "a propaganda era necessária não para atingir os ideais do socialismo, mas para difundir a convicção de que esses ideais só poderiam ser realizados por meio da revolução popular". (Cahm, 1989, pp. 44-46).

Ademais, quando Kropotkin fala de propaganda, deve-se ressaltar que tal propaganda, para ele, poderia ser levada a cabo de diferentes maneiras: em termos teóricos, em termos práticos, individual e coletivamente. Conforme apontado no artigo "O Espírito de Revolta", de 1881, incluído em Palavras de um Revoltado, há, diz Kropotkin (2005c, pp. 208-209, 219) uma "propaganda teórica" (escrita, falada) - que inclui "cartazes, panfletos, canções" etc. - e também uma propaganda da ação (concretamente praticada) - que, ao mesmo tempo, difunde os ideais revolucionários, encarna e "opera esta transformação" revolucionária.

Com frequência, ele reconheceu a importância de ambas as formas de propaganda; ademais, preferiu suas formas coletivas às individuais. Enfim, se se pode dizer que ele encontrou nessas diferentes formas de propaganda o cerne de sua estratégia, também se deve colocar que ele propôs, com certa frequência, outras iniciativas estratégicas. (Cahm, 1989, pp. 95, 113-115, 119, 127)

No entanto, cumpre notar que nos textos aqui estudados, não há em Kropotkin aquela perspectiva de Reclus, de A Evolução, a Revolução..., em que os trabalhadores deveriam ser, primeiro, conscientizados, educados ou instruídos, para que somente depois pudessem levar a cabo suas ações revolucionárias. É verdade que ele utilizava os conceitos reclusianos de evolução e revolução; para ele, ao passo que a evolução era sinônimo de desenvolvimento histórico normal, em meio ao qual poderia/deveria ocorrer a preparação prévia das massas, a revolução significava a rápida aceleração desse processo, em que o desenvolvimento acelerado e a transformação das instituições econômicas e políticas seria realizada. Ainda assim, Kropotkin não entendia que os períodos de evolução eram períodos apenas de conquista dos corações e das mentes da sociedade ou mesmo dos trabalhadores. As lutas concretas e classistas também tinham lugar nesse processo evolucionário, conforme discutirei adiante. (Kropotkin, 1987, p. 21; 1964, p. 168)

Esses outros elementos estratégicos propostos por Kropotkin, e que deveriam aliar-se à propaganda, em geral vincularam-se às questões de agitação e organização em seus distintos níveis. Em vários momentos, ele defendeu a necessidade de organizar os trabalhadores e os anarquistas para a luta revolucionária. Em 1881, no já mencionado "Os Inimigos do Povo", ele enfatizou: "Temos que organizar as forças dos trabalhadores[...]a fim de fazer delas uma formidável máquina de luta contra o capital". (Kropotkin, 2014a, p. 294) Em 1901, sustentou, numa carta enviada a delegados sindicais franceses e ingleses, que, para combater a influência da "Segunda Internacional" era necessário investir não numa internacional de partidos políticos, mas numa "federação internacional de todos os sindicatos do mundo todo". (Kropotkin, 2014k, p. 360)

Afirmou, num prefácio que escreveu em 1892 ao livro A Comuna de Paris e a Noção de Estado, de Bakunin: "estamos convencidos[...]que a formação de um partido anarquista[...], longe de ser algo nocivo à causa revolucionária comum, é altamente desejável e útil".14

(Kropotkin, 2014t, p. 130) Enfim, em certos momentos, como em 1881, ele sustentou um dualismo organizacional próximo daquele preconizado por Bakunin: "penso que precisamos de duas organizações; uma aberta, vasta, e funcionando abertamente; a outra secreta, destinada à ação".15 (apud Cahm, 1989, p. 145)

Em relação à questão da violência, as posições de Kropotkin também parecem não ter se modificado muito ao longo dos anos. Nos textos aqui estudados, ele nunca sustentou que a revolução social deveria ser realizada pacificamente; e, em raríssimos casos, indicou a possibilidade de isso ocorrer. (Ver, por exemplo, Kropotkin, 1998c, p. 25; 1946, p. 275)

A posição mantida ao longo de sua vida foi enunciada em sua autobiografia de 1899, Memórias de um Revolucionário:

As revoluções, isto é, os períodos de evolução acelerada e de transformações rápidas, são também conformes à natureza da sociedade humana.[...]Quando se inicia um período de evolução rápida e de reconstituição, a guerra civil pode rebentar em maior ou menos escala. O problema está então menos em saber evitar as revoluções do que encontrar os meios de obter os melhores resultados evitando o mais possível a guerra civil, diminuindo o número de vítimas e empregando o mínimo de animosidade. (Kropotkin, 1946, p. 276)

Ou seja, a violência seria quase que certamente necessária na revolução, em especial pela resistência que lhe ofereceriam os detentores do poder. A violência dos oprimidos, nesse sentido, seria imprescindível para combater a violência sistemática e sistêmica dos capitalistas e do Estado. A violência pela violência, característica das revoluções políticas burguesas, não seria, portanto, um fim em si, muito menos o terror revolucionário o meio mais adequado para alcançar a vitória revolucionária. A violência é um fato inevitável na revolução social, e deve ser minimizada, de acordo com as possibilidades. (McKay, 2014, p. 65; Baldwin, 1970, p. 4)

ENTRE O ANARQUISMO INSURRECIONALISTA E O ANARQUISMO DE MASSAS

Finalmente, quando se investigam as posições de Kropotkin assumidas nos principais debates que envolvem o anarquismo insurrecionalista (e a noção de "propaganda pelo fato") e o anarquismo de massas (incluindo o sindicalismo, as lutas concretas e as reformas), alguns comentários podem ser feitos.

Algumas vezes, Kropotkin foi apontado como um defensor da propaganda pelo fato, ao menos durante os anos 1880. (Joll, 1970, p. 147; Guérin, 1968, p. 80) No entanto, tal afirmação mostrou-se imprecisa. Tanto pela citação frequentemente atribuída a Kropotkin para fundamentar tal afirmação, e que na verdade faz parte de um texto escrito por Cafiero16, quanto por outros fatores, como a atribuição acrítica das posições do Congresso de Londres (1881) a Kropotkin, e as análises bastante fragmentadas de sua obra e sua correspondência.

Caroline Cahm (1989), naquele que considero o melhor estudo de Kropotkin dos anos 1872 a 1886 - Kropotkin and the Rise of Revolutionary Anarchism[Kropotkin e a Ascensão do Anarquismo Revolucionário]- realiza uma discussão pormenorizada, mostrando que, sem dúvida, Kropotkin foi influenciado pela onda insurrecionalista que se fortaleceu no fim dos anos 1870 e que marcou profundamente a Europa dos anos 1880 e 1890.

Para ela, "sem dúvida, ele[Kropotkin]esteve associado ao desenvolvimento da tática revolucionária da propaganda pelo fato" (p. 97). Tal associação, mesmo que relativamente curta - indo do fim dos anos 1870 até meados dos anos 1880 -, teve relevância no conjunto do pensamento e da ação kropotkinianos. Sofreu influência não apenas do contexto internacional, mas também do próprio anarquismo europeu. Na Parte II de seu livro, Cahm discute detalhadamente o vínculo de Kropotkin com a "propaganda pelo fato" e o insurrecionalismo, apontando alguns elementos que explicitam os marcos, vínculos e adesões nessa direção. Dentre eles, três se destacam.

Primeiro, a influência que Kropotkin teve dos narodniks russos, quando, já anarquista, entre 1872 e 1874, atuou junto a eles no Círculo Tchaikovsky. (pp. 44-46, 92, 97, 136, 272-273) Reforçada por uma interpretação de Bakunin que encontrava nele certos traços insurrecionalistas, tal influência manteve-se, ao menos em certos aspectos, por toda a vida de Kropotkin. (pp. 76-78)

Segundo, a influência do anarquismo europeu que, conforme discutido, aderia progressivamente à estratégia da "propaganda pelo fato". Cumpriram um papel importante para Kropotkin tanto os anarquistas italianos - que, desde 1876 eram grandes entusiastas do insurrecionalismo -, quanto os anarquistas espanhóis - que, especialmente em Madri, assumiram posições semelhantes e, entre 1877 e 1878, foram relevantes na formação política de Kropotkin. (pp. 78-80, 105-108, 121) Foi também destacado o papel de Paul Brousse, um dos maiores entusiastas do insurrecionalismo no período; em 1877, ele publicou seu influente artigo "La Propagande par le Fait"[A Propaganda pelo Fato], no jornal L'Avant-Garde[A Vanguarda], dirigido por ele próprio e Kropotkin. (p. 102) Enfim, o Congresso de Londres de 1881, no qual Kropotkin esteve presente; ali, como apontado, endossou-se internacionalmente a estratégia da "propaganda pelo fato" e propôs-se fundar a "Internacional Negra". (pp. 152-177).

Terceiro, a influência da onda de atentados ocorrida em 1878 na Rússia (contra F. Trepov, governador de Petrogrado, e N. Mezentsov, chefe da polícia de Estado), na Alemanha (contra o Imperador Guilherme I) e na Itália (contra o rei Humberto I); assim como o assassinato de Alexandre II, também na Rússia, em 1881, e os atentados ocorridos na Alemanha, na Áustria e na França, em 1886. (pp. 109, 114, 119-120, 123, 278) Para Kropotkin, tais atos de revolta eram parte importante da revolução; poderiam não só inspirar as pessoas a agir, mas iniciar revoltas mais generalizadas e mesmo um processo revolucionário. (pp. 108, 133-134, 271)

Esses elementos ajudam a entender a postura adotada por Kropotkin frente à "propaganda pelo fato" e ao insurrecionalismo, entre o fim dos anos 1870 e meados dos 1880. Ele observou esse desenvolvimento com simpatia e interesse, ainda que nem sempre tenha se manifestado publicamente sobre o assunto. (pp. 111, 114-115).

No citado "O Espírito de Revolta", de 1881, Kropotkin explica como as minorias têm condições de, por meio das ações combativas e violentas, individuais ou coletivas, produzir efeitos sobre as massas:

É pela ação que as minorias conseguem despertar este sentimento de independência e este sopro de audácia, sem os quais nenhuma revolução poderia se realizar. Homens sensíveis, que não se contentam com palavras, mas que procuram colocá-las em execução[...], sabem que é preciso ousar para vencer, são as sentinelas perdidas que engajam o combate, bem antes que as massas estejam bastante excitadas para erguer abertamente a bandeira da insurreição.[...][Tais homens, muitas vezes considerados loucos]encontram simpatias, a massa do povo aplaude em segredo sua audácia e eles encontram imitadores. À medida que os primeiros dentre eles vão povoar os calabouços e as prisões, outros vêm continuar sua obra; os atos de protesto ilegal, de revolta, de vingança multiplicam-se.[...]Pelos fatos que se impõem à atenção geral, a nova ideia infiltra-se nos cérebros e conquista prosélitos. Tal ato faz, em alguns dias, mais propaganda do que milhares de brochuras. (Kropotkin, 2005c, pp. 209-210)

Ou seja, para Kropotkin, são esses "homens sensíveis" audaciosos, essas "sentinelas perdidas" que, por meio de sua ação, se adiantam às massas e garantem, entre elas, a simpatia necessária às suas posições. Essa simpatia surge tanto pelo apoio, mesmo que velado, às suas ações iniciadoras, quanto pela repressão, que produz a necessária solidariedade. Com isso, as massas se engajam em ações semelhantes, que se multiplicam e propagandeiam a outros, muito mais eficazmente que os discursos, jornais ou livros, os ideais revolucionários. O resultado disso é a insurreição, passo necessário para a revolução social.

Essa noção, tipicamente insurrecionalista, se reforça ainda pelas posições impossibilistas (contrárias às lutas de curto prazo pelas reformas) que Kropotkin manifestou em alguns momentos. Desde o período russo, entre 1872 e 1874, apesar de sua proximidade com os internacionalistas, ele demonstrou preocupação que as lutas por reformas pudessem comprometer as lutas revolucionárias, e mesmo a realização da revolução social. (Cahm, 1989, pp. 231-235) Em 1881, no artigo "L'Organisation Ouvrière"[A Organização Operária], ele posicionou-se contra a ideia de um "programa mínimo" para as lutas sindicais. (Kropotkin, 2014c, p. 305) Em 1890, no texto "Le Premier Mai 1891"[O Primeiro de Maio de 1891], criticou os limites demasiadamente restritos da luta pelas oito horas diárias de trabalho. (Kropotkin, 2014f, pp. 327-328) Em 1907, no já citado "Anarquistas e Sindicatos", escreveu que "não há dúvida que, ao entrar em um sindicato, um anarquista faz uma concessão", visto que tal atitude implicaria, em alguma medida, certa flexibilização de posições. (Kropotkin, 2014o, p. 390)

Contudo, tais posições assumidas por Kropotkin não podem ser consideradas uma defesa absoluta da "propaganda pelo fato" e do insurrecionalismo, nem mesmo no período em que elas estiveram no auge entre os anarquistas europeus. Ao longo dos anos em questão, o endosso por parte de Kropotkin dessa estratégia foi crítico e mesclou-se com a defesa do anarquismo de massas.

Se Kropotkin (2014v, pp. 206-207; 2014o, p. 392) encontrou algumas perspectivas insurrecionalistas em Bakunin, não deixou de reconhecer que os aspectos fundamentais de suas posições favoreciam o anarquismo de massas e o sindicalismo. O trabalho de Bakunin na AIT e seu vínculo com a forma revolucionária de sindicalismo que ali se constituía foram os elementos mais marcantes nesse sentido.

A própria Cahm (1989) mostra outros aspectos em seu livro que ajudam a elucidar as posições de Kropotkin.

Em distintas ocasiões, desde o fim dos anos 1870 até o início dos 1880, ele manifestou discordâncias frente aos insurrecionalistas italianos. (pp. 98, 103, 167) Se teve proximidade com os insurrecionalistas espanhóis de Madri, não deixou de manter a mesma proximidade com os sindicalistas de Barcelona. Inclusive, quando emergiu um conflito entre ambos, em 1878, no seio da Federação Espanhola, Kropotkin envolveu-se para mediar, pois tinha simpatia e apoiava as duas estratégias. (pp. 107-108)

Cahm argumenta também que, quando o mencionado artigo de Brousse sobre a "propaganda pelo fato" foi publicado, em 1877, Kropotkin não fez qualquer comentário, e alguns dias depois escreveu sobre as greves ferroviárias nos Estados Unidos. Tal artigo seria criticado por Kropotkin em 1909, que justificou que sua proximidade com Brousse não implicava completo acordo com sua estratégia da "propaganda pelo fato". (pp. 102-104)

Ela demonstra, ainda, que no Congresso de 1881, as posições de Kropotkin foram minoritárias. Naquela ocasião, ainda que visse necessidade das ações ilegais, incluindo os atentados, e mesmo que enxergasse indispensabilidade de fatos que pudessem propagar os ideais revolucionários, ele não acreditava na exclusividade dos atos de revolta fora da legalidade e nem na sua articulação/promoção em agrupamentos públicos. Sustentava a necessidade da propaganda tanto por fatos quanto por meios orais e escritos, e entendia ser fundamental a articulação em dois níveis, um público e outro clandestino - as ações ilegais (atentados etc.) deveriam ser concebidos e praticados por este segundo nível. (pp. 154-160)

Além disso, Kropotkin enxergava limites nos atentados políticos (contra autoridades do Estado), destacando sua preferência pelos atentados econômicos (em especial contra os latifundiários, estimulando a expropriação de terras por parte dos camponeses). Enfim, seu estímulo de fatos que se convertessem em formas eficazes de propaganda não se resumia aos atentados; para ele, todos os atos de revolta, todas as ações protagonizadas coletiva ou individualmente no sentido de fazer avançar a revolução e a anarquia teriam esse papel, inclusive aquelas no movimento operário e o sindicalismo17. (pp. 113, 115, 123-124, 142, 159-160)

Em 1891, Kropotkin fez uma crítica em La Révolte às posições hegemônicas no Congresso de Londres, ocorrido dez anos antes, mostrando "o que os anarquistas fizeram de errado em 1881":

Quando os revolucionários russos mataram o czar[...]os anarquistas europeus imaginaram que, dali em diante, alguns poucos revolucionários fervorosos, armados com algumas bombas, seriam suficientes para fazer a revolução social.[...]Um edifício construído sobre séculos de história não pode ser destruído com alguns quilos de explosivos. (apud Skirda, 2002, p. 55, grifos meus)

Ou seja, num momento em que ainda preponderavam na Europa os arroubos insurrecionalistas, Kropotkin já enxergava os limites dos atentados. Entretanto, não se pode dizer que ele, na esteira do que ocorreria naquele continente com os anarquistas, passaria a adotar uma visão mais favorável ao anarquismo de massas e ao sindicalismo apenas com a fundação da CGT francesa em 1895.

Desde que se assumiu anarquista, em 1872, Kropotkin sustentou posições vinculadas ao anarquismo de massas em geral, e ao sindicalismo revolucionário em particular. Relacionou-se, foi influenciado por tais posições, e também contribuiu para influenciar parte considerável dos anarquistas em tal direção, graças à destacada posição que assumiu no "movimento anarquista" depois da morte de Bakunin. Foram essas posições que subsidiaram afirmações de autores como Lucien van der Walt (2019a, p. 254) - "Kropotkin[...]defendeu o sindicalismo revolucionário[syndicalism]" -, Iain McKay (2014, pp. 40-41) - "Kropotkin foi muito favorável ao sindicalismo revolucionário[syndicalism]" - e Vadim Damier (2009, p. 30) - "Kropotkin foi um dos primeiros a encorajar anarquistas a trabalharem nos sindicatos".

O livro de Cahm (1989), em sua Parte III, discute o vínculo de Kropotkin com a ação coletiva revolucionária no movimento operário e nos sindicatos. Ela mostra que, apesar do vínculo com a Internacional que estabelece em 1872, as posições de Kropotkin frente ao sindicalismo mantiveram-se ambíguas até 1877; nesses anos realizou várias críticas ao trade-unionismo inglês e à influência da socialdemocracia no movimento operário. (pp. 235-242)

No entanto, de 1877 em diante, foram muito importantes para a mudança de posição de Kropotkin algumas experiências práticas, organizações e luta dos trabalhadores no norte global; a partir de então, passou a ver com maior simpatia os sindicatos e o sindicalismo, e mesmo a defender posições sindicalistas revolucionárias. Destacam-se, dentre elas: em 1877, as greves de Pittsburg, nos Estados Unidos, e a retomada do movimento sindical na Inglaterra e na França (pp. 244-245); entre 1878 e 1881, o sindicalismo revolucionário espanhol, particularmente de Barcelona, e as greves radicalizadas na Inglaterra e na Bélgica (p. 246); em 1890, a greve dos trabalhadores das docas, em Liverpool, Inglaterra (p. 267); e, obviamente, a experiência da CGT entre 1895 e a Primeira Guerra Mundial (p. 268).

De modo que, em 1907, Kropotkin reconhecia, numa carta a James Guillaume, que o envolvimento dos anarquistas nos sindicatos era importante; num prefácio daquele mesmo ano, afirmou que as posições dos sindicalistas revolucionários da CGT "estão organicamente ligadas às primeiras formas da ala esquerda da Internacional". (apud Nettlau, 1996, p. 279)

Em 1914, escreveria a Luigi Bertoni:

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