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(pt) Brazil, OSL, Libera #183 - AS CLASSES SOCIAIS NO CAPITALISMO-ESTATISMO: NOÇÕES DE TEORIA SOCIAL LIBERTÁRIA - Felipe Corrêa (ca, de, en, fr, it, tr)[traduccion automatica]

Date Sun, 8 Feb 2026 08:03:59 +0200


Este artigo tem por objetivo apresentar e discutir, desde uma perspectiva teórica e libertária, o conceito de classes sociais no capitalismo-estatismo. Em termos metodológicos, trata-se de um trabalho bibliográfico na área da teoria social, que toma como base autores anarquistas clássicos e contemporâneos e, a partir deles, faz a exposição de um esboço inicial de teoria libertária das classes sociais, a qual se distingue das concepções hegemônicas e tem condições de subsidiar análises contemporâneas.

PARA UMA TEORIA SOCIAL LIBERTÁRIA

Aquilo que se chama aqui de teoria social libertária é um esforço recente que alguns pesquisadores - destacadamente aqueles vinculados ao Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA), dentre os quais me incluo - vêm empreendendo, no sentido de produzir uma teoria social contemporânea, de inspiração libertária, capaz de subsidiar análises concretas de diferentes realidades sociais do mundo moderno. E de explicar os processos de reprodução e mudança/transformação dessas realidades. Para tanto, essa teoria propõe a compreensão crítica dos conflitos sociais (forças em jogo, relações de poder/dominação) e do cenário (lógica estrutural, campos/esferas e instituições, estrutura e conjuntura) em que se dão esses conflitos.

Quando falo em "teoria social libertária", inspiro-me na terminologia utilizada por Alfredo Errandonea (1989, p. 7), em seu livro Sociología de la Dominación. Essa teoria parte, principalmente, das contribuições de pensadores clássicos do anarquismo, ou seja, daquilo que Lucien van der Walt (2009, pp. 83, 113) chamou de "análise social anarquista", e, ademais, incorpora aportes de autores posteriores por eles influenciados. Ela também propõe diálogos críticos, tanto com autores não anarquistas dessa tradição libertária, quanto com outros pensadores clássicos e contemporâneos, sempre que essas interações sejam produtivas e que não coloquem em xeque a coerência analítica do projeto em questão.1

Vale destacar que não se pretende que essa teoria social libertária seja a única a representar o pensamento dos autores anarquistas ou libertários, e nem sequer aquela que melhor representa todas as suas contribuições, tendo em vista a diversidade filosófica e teórica que tem marcado essa tradição. Tal teoria envolve uma das possibilidades que a rica tradição anarquista e libertária proporciona para o campo analítico contemporâneo.

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[1]López (economista brasileiro), Bruno Lima Rocha (cientista político brasileiro) e Felipe Corrêa (cientista social brasileiro, autor deste artigo). Neste artigo, retomo alguns elementos das extensas contribuições desses autores, tendo como foco apenas aquilo que pode subsidiar a discussão sobre as classes sociais, que agora pretendo realizar.

[2]É crucial destacar que o termo "libertária/o" remete aqui à tradição da esquerda socialista e comunista antiautoritária, federalista, autogestionária e democrática, que existe desde o século XIX, e que utiliza e reivindica o termo "libertário" e seus derivados desde o fim dos anos 1850. (MCKAY, 2018) Dentre seus grandes representantes históricos estão os anarquistas, mas também outros socialistas, comunistas ou marxistas antiautoritários e heterodoxos.

ANARQUISMO E CLASSES SOCIAIS

É sempre importante recordar que o anarquismo é uma ideologia ou doutrina política que, em seus mais de 150 anos de presença global, tem considerado a questão das classes sociais como algo primordial. O anarquismo surgiu no seio da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), como uma expressão socialista, revolucionária e antiautoritária de um setor das classes oprimidas. Em toda sua trajetória, os anarquistas vêm usufruindo das classes sociais em suas análises classistas da realidade, em suas estratégias de luta de classes, em suas concepções de transformação social, que incluem o fim das classes sociais. (CORRÊA, 2022a)

Não se deve considerar essa posição como algum tipo de reducionismo de classe. Isso porque os anarquistas sempre criticaram e combateram variadas formas de dominação, que certamente incluíram classe, mas que também envolveram nacionalidade, raça-etnia e gênero-sexualidade. Contudo, um destacado traço nessa posição foi a vinculação histórica à questão de classe das análises críticas e das lutas contra o imperialismo, o racismo e o patriarcado. Por que isso ocorreu?

A resposta está no caráter único da desigualdade de classe. Entre todas as relações sociais, é apenas a classe que envolve tanto a dominação quanto a exploração; apenas as classes populares[oprimidas]são exploradas e apenas as classes exploradas são capazes de criar uma sociedade sem exploração, pois somente elas não têm interesse na exploração. Se a exploração é um aspecto indissociável da sociedade moderna, e se a liberdade humana exige a abolição da exploração, então é apenas a luta de classes que pode emancipar a humanidade. Vistas dessa perspectiva, as formas de opressão[dominação]que não são estritamente redutíveis à classe - como gênero e raça - devem ser abordadas numa perspectiva classista, pois isso estabelece a única base para a emancipação geral; inversamente, é somente por meio do combate às divisões na classe trabalhadora - divisões que se baseiam em preconceito e discriminação injusta - que a revolução de classe, a única que pode emancipar a humanidade, é possível. (VAN DER WALT, 2009, p. 111, colchetes adicionados)

Essa concepção das classes sociais atravessou distintas práticas e teorias anarquistas. Envolveu tanto suas dimensões "político-militante" e "analítico-científica" (VAN DER WALT, 2018, p. 515), quanto seus elementos estratégicos-programáticos: "análise da realidade passada e presente, estrutural e conjuntural", "estratégias e táticas para transformar a realidade" e "objetivos finalistas" (CORRÊA, 2014a, pp. 6, 8).

Apesar de tal amplitude, conforme apontado, este artigo toma em conta apenas parte dessa dimensão analítico-científica. Mais especificamente, aquela que se relaciona com a análise da realidade, desde um enfoque da teoria social, e que visa a conceituar as classes sociais no sistema de dominação ou modo de poder capitalista-estatista.

Essa abordagem libertária das classes sociais no capitalismo-estatismo, quando comparada a outras, mostra-se, em certo sentido, inovadora. Porque rompe com as perspectivas não relacionais e economicistas, ao propor um enfoque relacional e multicausal, que parte das relações no campo econômico, e avança para aquelas dos campos político e moral/intelectual. Por isso, tal abordagem distingue-se daquelas que compreendem as classes exclusivamente a partir de renda, riqueza ou mesmo de propriedade dos meios de produção e/ou relações de exploração do trabalho. Ela leva em conta tais elementos, mas os insere como parte de uma estrutura sistêmica de dominação mais ampla, que é indispensável na análise da sociedade capitalista-estatista.

CAPITALISMO-ESTATISMO: SISTEMA DE DOMINAÇÃO E MODO DE PODER

Apesar de mudanças substanciais e formas históricas específicas, é possível dizer que a sociedade que se conforma na modernidade e que perdura até o presente é a sociedade capitalista-estatista - ou, simplesmente, o capitalismo-estatismo. Bakunin (2003, pp. 168, 228) referiu-se a essa sociedade, dentre outras maneiras, como "sistema capitalista" e "sistema estatista". Malatesta (2000, p. 21; 1999a, p. 190; 2014a, p. 436) também utilizou "sistema capitalista" e, entre outros termos, empregou "sistema social" e "ordem capitalista e estatista".

Numa análise que se pode chamar de horizontal2, ambos propuseram dividir analiticamente a estrutura macrossocial desse sistema em três partes. Bakunin (2014a, pp. 256-257) distinguiu entre "organização econômica" ou "fatos econômicos", "desenvolvimentos[...]políticos e jurídicos" ou "fatos[...]políticos", e "desenvolvimento das ideias" ou "fatos intelectuais e morais". Malatesta (2014b, p. 528; 2014c, p. 230; 2000, p. 11) referiu-se a certa "configuração econômica, política e moral" da sociedade; reivindicou a "resistência econômica", a "resistência política" e a "resistência moral"; relacionou a questão moral com a intelectual.

Baseando-se na terminologia malatestiana, cada uma dessas partes pode ser chamada de campo3, e o sistema capitalista-estatista pode ser analiticamente dividido em três campos: campo econômico, campo político e campo intelectual-moral.4 Esse sistema reúne o conjunto dos "meios de vida", ou seja, a totalidade dos meios econômicos (produção e troca), dos meios políticos (governo e repressão) e dos meios intelectuais-morais (comunicação e instrução). (CORRÊA, 2022b)

Além disso, tanto Bakunin (2003, pp. 35-36, 71-73, 228; 2009a, p. 49) quanto Malatesta (2001, p. 23; 1989, p. 141) destacaram o caráter sistêmico dessa sociedade, que articula de maneira interdependente e indissociável esses campos e meios de vida, ou seja, economia capitalista, Estado moderno e grandes instituições de comunicação e instrução (religião e educação, principalmente). A terminologia malatestiana também permite nomear essa noção de indissociabilidade dos três campos.5 (MALATESTA, 1999c, p. 58)

Quando se fala em "sistema capitalista-estatista" destaca-se, concomitantemente, os caráteres sistêmico e extraeconômico da sociedade moderna, ambos sustentados por Bakunin e Malatesta. Errandonea (1989) conceitua essa sociedade como um "sistema de dominação", na medida em que possui uma estrutura de classes, na qual se estabelecem relações de dominação entre classes dominantes e classes oprimidas, e entre outros agrupamentos sociais. Jonathan Nitzan e Shimshon Bichler (2009) a ele se referem como um "modo de poder", ou seja, uma ordem que possui um impulso estrutural para a acumulação de capital e na qual prevalecem relações de poder e dominação.

Isso nos permite afirmar que a sociedade moderna é um sistema de dominação capitalista-estatista, um modo de poder capitalista-estatista histórico, cuja estrutura de classes é marcada por relações de dominação duráveis e hegemônicas, e que abarca outras formas de dominação.

DOMINAÇÃO, PROPRIEDADE E PRIVILÉGIO

Para Bakunin e Malatesta, sistema de dominação capitalista-estatista, como outras sociedades históricas, explica-se, principalmente, em função de seus conflitos sociais, de suas relações de poder e dominação. (BAKUNIN, 2009a, p. 34; MALATESTA, 2020) Errandonea, Nitzan e Bichler também colocam em foco os conceitos de poder e dominação. Agora, por mais que Bakunin, Malatesta e outros clássicos anarquistas tenham tendido a considerar poder e dominação praticamente como sinônimos, entendo ser importante, a partir de López (2001, pp. 121-130), insistir na distinção entre ambos os conceitos, colocando a dominação como uma forma - ainda que não a única - de poder.6

López (2001, pp. 61-62, 121-130) define o poder como uma "relação social" que resulta do "enfrentamento entre as forças sociais" - sejam elas classistas, grupais ou individuais -, assim que uma(s) força social se impõe(m) a outra(s). "É este ato de imposição de uma força sobre sua oposição que chamamos de poder." Ele ainda aponta que, em termos históricos, pode-se conceber o poder em duas grandes formas ou modelos: o poder dominador (dominação) e o poder autogestionário (autogestão).

A dominação, aqui considerada uma forma histórica de poder, é concebida por Bakunin, em termos macrossociais, como relação social que resulta do enfrentamento entre forças sociais, em que alguns (em geral uma minoria com maior força social) se impõem sobre outros (em geral uma maioria com menor força social) e usufruem dessa impo­sição para se tornarem autoridades artificiais e obterem privilégios econômicos e não econômicos. Trata-se, portanto, de uma relação entre uma minoria privilegiada e uma maioria desprivilegiada para benefício da primeira e em detrimento da segunda. (CORRÊA, 2019a, p. 457)

Bakunin e Malatesta compreendem o modo de poder capitalista-estatista como uma sociedade profundamente marcada pela dominação. (BAKUNIN, 2003; MALATESTA, 2001) Dominação que, em termos econômicos, políticos e intelectuais-morais, se expressa em quatro formas, conforme indica Malatesta.

No campo econômico, a dominação econômica ou "exploração do trabalho", característica central da economia capitalista.7 No campo político, duas formas de dominação política são promovidas pelo Estado moderno. A primeira, a utilização da "força brutal", da "violência física", ou, simplesmente, coerção física. A segunda, "faculdade de fazer as leis para regular a relação dos homens entre eles e fazer executar essas leis", ou simplesmente dominação político-burocrática. No campo intelectual-moral, a dominação intelectual-moral ou "poder religioso, universitário"8. (MALATESTA, 2001, pp. 18, 23, 42)

Importante notar aqui que a dominação, nessas formas, foi estabelecida historicamente e é, ao mesmo tempo, causa e efeito da propriedade capitalista-estatista (privada ou nacional/estatal) dos meios econômicos, políticos e intelectuais-morais, e de diferentes privilégios. Ou seja, há um ciclo ou relação de reforço mútuo entre dominação e propriedade-privilégios nos três campos, sendo isso que explica a lógica estrutural/sistêmica do capitalismo-estatismo, cujo traço essencial é a acumulação permanente de capital econômico, capital político e capital intelectual-moral.

AS CLASSES SOCIAIS NO CAPITALISMO-ESTATISMO

Para Bakunin, as sociedades históricas vêm sendo atravessadas por uma cisão entre classes sociais, contrapondo oprimidos-dominados e dominadores-opressores.

Desde que existe uma história, o mundo humano foi partilhado em duas classes: a imensa maioria, acorrentada a um trabalho mais ou menos mecânico, brutal e forçado; os milhões de trabalhado­res, eternamente explorados, passando sua triste vida numa misé­ria vizinha à fome, na ignorância e na escravidão, e condenados, por isso mesmo, a uma eterna obediência. Depois, por outro lado, a minoria mais ou menos feliz, instruída, refinada, exploradora, dominante, governante, consumindo a melhor parte do trabalho coletivo das massas populares e representando toda a civilização. (BAKUNIN, 2017, pp. 453-454)

No capitalismo-estatismo, essa contradição entre as classes permanece, conforme argumenta Malatesta:

Através de uma rede complicada de lutas de todos os tipos, invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associação dos vencidos, unidos para se defenderem, e dos vencedores, para atacarem, chegou-se ao estado atual da sociedade, em que alguns homens detêm hereditariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto a grande massa, privada de tudo, é frustrada e oprimida por um punhado de proprietários.

Disto depende o estado de miséria em que se encontram geralmente os trabalhadores, e todos os males decorrentes: ignorância, crime, prostituição, definhamento físico, abjeção moral, morte prematura. Daí a constituição de uma classe especial (o governo) que, provida dos meios materiais de repressão, tem por missão legalizar e defender os proprietários contra as reivindicações do proletariado. Ele se serve, em seguida, da força que possui para arrogar-se privilégios e submeter, se ela pode fazê-lo, à sua própria supremacia, a classe dos proprietários. Disso decorre a formação de outra classe especial (o clero), que por uma série de fábulas relativas à vontade de Deus, à vida futura, etc., procura conduzir os oprimidos a suportarem docilmente o opressor, o governo, os interesses dos proprietários e os seus próprios. (MALATESTA, 2000, pp. 8-9)

Antes de tudo, é importante ressaltar que, se as classes sociais são um traço fundamental das sociedades históricas, no sistema de dominação capitalista-estatista isso não é diferente. Entretanto, o que se há nessa sociedade é uma estrutura em que as classes sociais concretas apresentam uma configuração específica, visto que elas variam de acordo com o contexto histórico (espaço e tempo). Quando se estabelece um novo sistema, classes ascendem, tornam-se mais e menos significativas, surgem e desaparecem.

Para a emergência do modo de poder capitalista-estatista, foram relevantes, em termos de estrutura de classes, tanto a ascensão da burguesia e da burocracia moderna, quanto o desenvolvimento do proletariado urbano e rural. Foi também marcante a incorporação de antigos latifundiários e camponeses, ambos de relevância decrescente, e ainda de novos setores intermediários e de novos agentes religiosos, acadêmicos e comunicacionais. (BAKUNIN, 2008; VAN DER WALT, 2009, pp. 48-52; CORRÊA, 2019a, pp. 464-491)

Essa estrutura de classes é o principal aspecto do capitalismo-estatismo, e o conflito social entre classes dominantes e classes oprimidas (luta de classes), sua principal contradição. (ERRANDONEA, 1989) Bakunin afirmou que "a divisão da humanidade em classes é sistêmica", e insistiu nessa centralidade, ainda que de maneira não determinista, pois, para ele a luta de classes não é o único conflito social da sociedade capitalista-estatista, e nem mesmo aquele que determina todos os outros. (LEIER, 2009)

Para Bakunin, ainda, essa centralidade das classes sociais e da luta de classes justifica-se por, pelo menos, três razões. "Primeiro, ela move a política das discussões abstratas sobre 'justiça' e a ancora na experiência". Experiência esta que media, por um lado, a estrutura de classes, e, por outro, a consciência e as ações de classe. "Segundo, ela demonstra que o 'povo' não é uma noção unificada, pois os interesses materiais - classe - divide o povo". Por isso, não há uma sociedade; o que há é uma sociedade de classes. "Independente de outras questões poderem unir as pessoas, a classe permanece uma linha divisória crucial". Terceiro, "o argumento sobre classe sugere que o foco nas questões locais, nas questões de identidade, e nas reformas é importante, mas nenhuma delas abarca a questão principal, a exploração, que afeta a vasta maioria da humanidade". (LEIER, 2009) Nesse sentido, é a classe, e apenas ela, que possui condições de unir os trabalhadores para enfrentar o sistema de dominação capitalista-estatista e sua estrutura de classes, para promover uma transformação revolucionária que garanta o fim da dominação e das classes sociais.

Tanto Bakunin (2008, p. 75) quanto Malatesta (2001, p. 42) discutiram inúmeras vezes a questão da exploração do trabalho, e sempre reconheceram sua importância no capitalismo-estatismo. Por exemplo, o primeiro criticou, nessa sociedade, a "exploração de trabalho coletivo por indivíduos que não possuem nenhum direito a fazê-la"; o segundo reconheceu "na propriedade individual e no governo" as raízes da "exploração do trabalho de todos por um punhado de privilegiados".

Contudo, ambos não restringiram sua definição de classes sociais e da luta de classes a critérios puramente econômicos e/ou vinculados ao âmbito do trabalho, como no caso do conceito de exploração. Note-se que, nas citações que abrem esta parte do artigo, quando Bakunin e Malatesta discutem as classes sociais, além dos critérios econômicos (exploração, trabalho, pobreza), eles abordam também critérios políticos (governo, violência, mando-obediência) e critérios intelectuais-morais (educação, instrução, saber). (BAKUNIN, 2017, pp. 453-454; MALATESTA, 2000, pp. 8-9)

Os dois, portanto, extrapolam a abordagem unidimensional, que define as classes apenas por critérios econômicos e/ou pela exploração do trabalho, e apontam para uma definição multidimensional, cujo fundamento é o conceito mais amplo de dominação. Bakunin e Malatesta conceituam as classes sociais a partir das quatro grandes formas de dominação que se produzem nos campos econômico, político e intelectual moral - ou seja, exploração do trabalho, coerção física, dominação político-burocrática e dominação intelectual-moral -, e, ao mesmo tempo, da propriedade dos meios de vida - ou seja, dos meios econômicos (produção e troca), dos meios políticos (governo e repressão) e dos meios intelectuais-morais (comunicação e instrução) - e dos privilégios vinculados a aos três campos em questão.

De modo que, com base nesses dois clássicos anarquistas e naquilo que foi discutido até o momento, é possível sintetizar teoricamente o conceito de classes sociais como agrupamentos humanos históricos e estáveis que são produzidos e reproduzidos pelas relações macrossociais de dominação, pela propriedade privada ou nacional/estatal dos meios de vida e pelos privilégios que existem nos campos econômico, político e intelectual-moral.

Entre os fins do século XIX e o início do século XX, Bakunin e Malatesta identificaram as classes concretas que existiam em seu tempo e espaço. Ambos apontaram um conjunto de classes dominantes e oprimidas bastante semelhante. Entre as primeiras, indicaram latifundiários e burguesia (proprietários dos meios de produção e troca ou meios econômicos), burocracia (proprietários dos meios de governo e repressão ou meios políticos), clero-sábios (proprietários dos meios de comunicação e instrução ou meios intelectuais-morais). Entre as segundas, apontaram os trabalhadores em sentido ampliado, ou seja, proletariado urbano (trabalhadores assalariados das cidades), proletariado rural (trabalhadores assalariados dos campos), campesinato (rendeiros e peque­nos proprietários) e marginalizados ou pobres em geral (desempregados, mendigos, miseráveis etc.). (CORRÊA, 2019a, 460-462; 2022b, pp. 11-129)

Entre essas classes há luta de classes, essa expressão do conflito de classes que coloca em lados contraditórios dominadores e oprimidos, cujo acesso à propriedade e aos privilégios econômicos, políticos e intelectuais-morais é profundamente desigual. Luta que é produzida em razão da posição que os indivíduos e grupos ocupam na estrutura social - e, portanto, de seus interesses estruturais de classe - e que se fortalece ou enfraquece, se evidencia mais ou menos, graças à experiência, à ação e à consciência desses sujeitos, ou seja, às posições assumidas no conflito de classes. (BAKUNIN, 2001, p. 68; 2009a, pp. 59-60; 2014b, p. 209)

A luta de classes possui distintas expressões. Ela se manifesta de maneiras mais particulares, microssociais, quando envolve conflitos pontuais, por exemplo, entre os proprietários (burgueses) de uma indústria e os trabalhadores (proletários) nela empregados, ou entre um grande proprietário de terras (latifundiário) e os camponeses a ele submetidos. (BAKUNIN, 2007; MALATESTA, 2007) Mas, ela também se manifesta de maneiras mais gerais, de maior envergadura, macrossociais, entre dois amplos conjuntos: classes dominantes e classes oprimidas. Em termos analíticos, estas últimas são as mais importantes, pois, como indica Bakunin (1988, p. 16), "todas estas diferentes existências políticas e sociais" - as classes sociais concretas e históricas - "deixam-se hoje reduzir a duas categorias principais, diametralmente opostas uma à outra, e inimigas naturais uma da outra: as classes políticas[dominantes][...]e as classes operárias[oprimidas]".

Portanto, é possível dizer que, no modo de poder capitalista-estatista, quando se opera essa redução analítica e teórica das classes sociais concretas, há, de um lado, um conjunto de classes dominantes, composto por uma ínfima minoria de latifundiários, burgueses, burocratas e grandes produtores e difusores de crenças, conhecimentos e informações10, que exploram (se apropriam dos excedentes do trabalho), governam (reprimem e impõem a obediência) e enganam (impõem ideias, valores, concepções de mundo) as classes oprimidas; de outro, um conjunto de classes oprimidas, composto por uma imensa maioria de trabalhadores em geral, ou proletários urbanos, proletários rurais, camponeses e marginalizados, concomitantemente explorado, governado e enganado pelas classes dominantes. Tal é o sentido adotado quando se fala, nessa sociedade, em duas classes contraditórias.

Cabe, enfim, destacar que, conforme colocado, a dominação de classe não é única e nem aquela que determina todas as outras formas de dominação e conflitos sociais na sociedade capitalista-estatista.

Não é o propósito deste artigo discutir as outras grandes formas históricas e estruturais de dominação dessa sociedade - a dominação nacional (colonialismo/imperialismo), a dominação étnico-racial (racismo estrutural) e a dominação de gênero e sexualidade (patriarcado) - assim como sua relação com a dominação de classe, algo que vem sendo desenvolvido em outros escritos, meus e de outros autores vinculados à teoria social libertária. Ainda assim, cumpre apenas apontar que colonialismo/imperialismo, racismo estrutural e patriarcado destacam-se na produção, na reprodução e nas mudanças do capitalismo-estatismo e, também das classes sociais e da própria dominação de classe. Ao mesmo tempo em que as classes sociais têm marcado de maneira profunda essas três formas de dominação. (VAN DER WALT, 2009)

APONTAMENTOS CONCLUSIVOS

De maneira conclusiva, é possível destacar um conjunto de aspectos que sintetiza as posições sustentadas neste artigo. Antes de tudo, cumpre reafirmar que os anarquistas clássicos em geral, e os autores que vêm construindo a teoria social libertária em particular, não somente veem nas classes elementos fundamentais da realidade social, mas possuem aportes significativos para a discussão teórica acerca das classes sociais no capitalismo-estatismo.

De acordo com o que foi discutido, a sociedade capitalista-estatista é um sistema de dominação ou modo de poder, cuja lógica estrutural/sistêmica é a acumulação permanente de capital econômico, capital político e capital intelectual-moral, e cuja estrutura de classes é seu principal aspecto, e o conflito entre classes dominantes e classes oprimidas (luta de classes), sua principal contradição.

Esse sistema de dominação é resultado de um jogo de forças, um enfrentamento histórico e macrossocial entre forças sociais, em que algumas vêm se impondo sobre outras, e estabelecendo não apenas relações de poder, mas de dominação. No modo de poder capitalista, tomando por base um enfoque sistêmico/estrutural, a dominação é principalmente (mas não apenas) dominação de classe, na medida em que envolve a propriedade dos meios econômicos, políticos e intelectuais-morais, assim como privilégios nesses três campos.

Classes sociais que são definidas, em perspectiva relacional e multicausal, a partir das relações históricas e macrossociais de dominação, da propriedade privada ou nacional/estatal dos meios de vida e dos privilégios econômicos, políticos e intelectuais-morais. Ou seja, são os enfrentamentos entre forças sociais de classe, assim como as relações de dominação entre elas (classes dominantes e classes oprimidas, especialmente) aquilo que mais explica essa sociedade em termos sistêmicos e estruturais.

No entanto, não se pode negar que, no capitalismo-estatismo, a dominação de classe coexiste com outras formas de dominação, marcadamente o colonialismo/imperialismo, o racismo estrutural e o patriarcado, as quais contribuíram e vêm contribuindo para a conformação e a reprodução das classes sociais, e têm sido permanentemente marcadas pela dominação de classe.

De maneira que, se é verdade que não há possibilidade de uma ruptura com o capitalismo-estatismo sem um combate com foco nas classes sociais, na luta de classes, também é verdade que, tendo o anarquismo o projeto de acabar com todas as formas de dominação, é necessário enfrentar concomitantemente as dominações nacionais, de raça-etnia, de gênero-sexualidade, mas sempre por meio de uma perspectiva classista.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_____. "Poder e Anarquismo: aproximação ou contradição? In: Anarkismo.net, 2014b.[https://www.anarkismo.net/article/26913]

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* Trabalho apresentado no Primer Encuentro en Uruguay de Historiadores/as e Investigadores/as sobre Anarquismos, de 2023

1

2 Num artigo sobre as contribuições de Malatesta para a teoria social, sugiro que, a partir de seus escritos, é possível se conceber a análise da sociedade capitalista-estatista desde duas direções. Uma delas, "vertical", que discute as "relações interdependentes entre indivíduo e sociedade, algo que explica por que o sujeito produzido nesse sistema carrega consigo parte importante da influência das relações e instituições do capitalismo e do Estado"; outra, "horizontal", que discute os "três campos e das relações entre eles, ou seja, da economia capitalista, do Estado moderno e de suas grandes instituições de comunicação e instrução". (CORRÊA, 2022b, pp. 3-4)

3 O termo original italiano que permite a tradução como "campo" é terreno. Cf., por exemplo: Malatesta, 1999b, pp. 175, 177. "Campo, aqui, pode ser definido como âmbito ou espaço dedicado a certas atividades humanas, que se estabelece a partir de relações sociais institucionalizadas." (CORRÊA, 2022b, p. 6)

4 Numa abordagem que dialoga coerentemente com Malatesta, Bruno L. Rocha (2009, pp. 285-286, 111) nomeia esses campos de "esfera econômica", "esfera política-jurídica-militar", "esfera cultural/ideológica", e argumenta haver interdependência entre elas.

5 O termo original italiano que permite a tradução como "indissociabilidade" é indissolubilità. Cf., por exemplo: Malatesta, 1999c, p. 58.

6 Abordagens como a de López e outras, dentre as quais as minhas próprias, abrem a possibilidade de reconhecer que o projeto anarquista é, também, um projeto de poder. Mas que recusa a dominação e tem na autogestão seu fundamento. (CORRÊA, 2014b, 2012)

7 Seguindo Errandonea (1989, caps. 3 e 4), considero aqui a exploração como parte da dominação, como uma forma de dominação.

8 Forma de dominação que, em outros momentos, chamei de "alienação cultural" e "dominação ideológica/cultural". (CORRÊA, 2019b, 2022a, p. 152)

9 Cf. esses meus textos para ver todas as referências dos escritos de Bakunin e Malatesta que discutem essa questão.

10 Note-se que, assim como vem ocorrendo em outras classes e frações de classes, esses "grandes produtores e difusores de crenças, conhecimentos e informações" têm se modificado desde a produção desses clássicos anarquistas. Em seus contextos, Bakunin (2009b, p. 60) e Malatesta (2000, p. 9) apontaram o clero como o mais destacado representante dessa classe. Porém, cumpre notar que, com o passar do tempo, as lideranças católicas passaram a compartilhar cada vez mais espaço com as lideranças protestantes e de outras expressões religiosas. Ao longo do século XX, intelectuais-acadêmicos e grandes empresários da imprensa, do mundo editorial e da educação conquistaram crescente destaque entre os representantes dessa classe, movimento que, neste início de século XXI, vem sendo encabeçado pelos proprietários das chamadas big techs.

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