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(pt) [entrevista] ocupação Chiquinha Gonzaga, Rio de Janeiro
From
a-infos-pt@ainfos.ca
Date
Mon, 28 Feb 2005 19:28:07 +0100 (CET)
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A - I N F O S S e r v i ç o de N o t í c i a s
Notícias sobre e de interesse para anarquistas
http://ainfos.ca/ http://ainfos.ca/index24.html
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Por g. jornal O Independente3
entrevista realizada com o camarada m., da ocupação Chiquinha Gonzaga, em
fevereiro de 2005.1. Como e quando se deu a formação da ocupação Chiquinha Gonzaga? O que
aproximou as pessoas hoje reunidas no coletivo?A ocupação ocorreu após cinco meses de reuniões semanais, onde foram
discutidos a organização e o caráter da ocupação. Somente a comissão de
seleção dos prédios é que sabia qual o prédio exato a ser ocupado. Na
véspera da ocupação marcamos um ponto de encontro e nos dividimos em três
grupos. Os ocupantes foram informados do local exato no dia e na hora da
ocupação. Durante todo o processo não se arrecadou nenhuma contribuição
financeira dos ocupantes e todos foram espontaneamente para o local
marcado. Apesar de comemorarmos a ocupação no dia 23/07, na verdade ela
ocorreu às 00:40 do dia 24.
O que aproximou as pessoas foi o sonho de ter um local para morar,
livrando-se do aluguel, da ameaça de despejo ou mesmo da rua. A partir
deste sonho é que estimulamos o debate sobre a questão da moradia,
perguntamos se apenas ter um lugar para morar transformaria efetivamente a
vida das pessoas.
2. Qual a composição do coletivo (número de pessoas, idade das pessoas,
profissões exercidas, casados/as, solteiros/as, número de mulheres, número
de crianças etc.)? Vocês têm vontade de agregar mais pessoas? Por quê?Hoje os 68 apartamentos disponibilizados para moradia estão ocupados
(acredito que dois ainda estão por ocupar). No geral são cerca de 200
pessoas mais ou menos, sem incluir os apoios. Atualmente existe um grande
número de crianças e adolescentes (30%), a maioria entre 25 e 50 anos e
poucos com mais de 50.
A grande maioria dos ocupantes sobrevivem no mercado informal. Ou
originalmente são pedreiros, artesãos, empregadas domésticas, garçons,
catadores de lixo, até professores e artistas.
A maioria das famílias não são constituídas por pai, mãe e filhos, grande
parte são mães solteiras ou separadas. Os solteiros ocupam 20% dos
apartamentos. Atualmente a ocupação só abre vagas se alguém deixar ou for
afastado da ocupação e como já foi decidido novos ocupantes só se for
família. Contudo estamos num processo permanente de organização para novas
ocupações.
3. Como se organiza o coletivo? Como se dá a participação de todos e
todas? Como são tomadas as decisões?O coletivo se organiza por comissões de trabalho onde todos têm carga de
trabalho semanal para ser cumprida. São quatro assembléias semanais,
segunda-feira discutimos produção, quarta: discussão política , sexta:
avaliação e sábado: assembléia deliberativa onde todos têm o mesmo direito
de participação. As decisões são tomadas por consenso ou votação nas
assembléias.
4. Como a ocupação se sustenta? Quais as maiores dificuldades encontradas?
Vocês podem falar também da situação que os moradores que são camelôs
enfrentam com a prefeitura de César Maia?Através do apoio de alguns sindicatos e entidades que se solidarizaram com
a nossa luta, o coletivo anarcopunk freqüentemente organiza eventos que
arrecadam alimentos e dinheiro. Logo no início houve uma sessão de
pré-estréia do filme Olga que garantiu alimentos por quase um mês,
diversas atividades foram realizadas em benefício da ocupação. A ocupação
Chiquinha Gonzaga não quer viver de doações, por isso todas as
segundas-feiras realiza reuniões para organizar a produção. Já estamos
produzindo e vendendo camisetas com a marca da ocupação, discutimos
projetos de reciclagem do lixo, coisas deste tipo. Além disso foi aprovada
em assembléia uma pequena colaboração mensal dos ocupantes. Estamos também
elaborando projetos que possibilitem a auto-sustentação da ocupação.
Quanto aos camelôs a situação está terrível. A guarda municipal idealizada
e criada no primeiro governo CM [César Maia], tendo como comandante um
ex-colaborador do regime militar, tendo entre seus quadros vários
torturadores, submetem os trabalhadores informais a freqüentes sessões de
torturas (físicas e mentais) e espancamentos. Ontem quando estava saindo
da ocupação para concluir este questionário e te enviar, tive que ir até a
delegacia porque mais um camelo havia sido brutalmente espancado pelos
guardas, ele estava preparando a festa de aniversário da advogada do
movimento acompanhado de seu filho de 8 anos, quando foi abordado por mais
de seis elementos da gm [guarda municipal] e espancado sem nenhum motivo.
Na delegacia me contaram que se encontra internado no hospital
penitenciário dês o dia 31/12 o ambulante de nome Rodrigo brutalmente
torturado e espancado, provavelmente ficará com seqüelas. São diversos
casos deste tipo que ocorrem quase que diariamente em nossas ruas. Falo
com os companheiros que está na hora de uma ação mais radicalizada.
Principalmente contra o prefeito e os empresários que financiam esta
situação.
5. Quais são as tarefas dentro da ocupação? Vocês podem falar da cozinha
comunitária, da portaria, da hidráulica, elétrica, faxina etc? Todos
cumprem tarefas na ocupação? Como são distribuídas essas tarefas? Quais as
maiores dificuldades que vocês enfrentam no seu processo autogestionário?Atualmente a principal tarefa é a portaria, não pode haver furo
principalmente à noite e durante a madrugada. A cada duas horas dois
companheiros se revezam nesta tarefa. As comissões de hidráulica e
elétrica atualmente se formam esporadicamente pois o que poderia ser feito
sem um grande financiamento já foi realizado e a situação é bastante
razoável. O ideal seria substituir toda rede elétrica e hidráulica do
prédio. Os moradores de cada andar são responsáveis pela limpeza do mesmo,
tirando uma comissão para as áreas de uso comum. A cozinha acabou depois
que os moradores se mudaram definitivamente (sempre acontece,
infelizmente), mas reforçamos a necessidade de mantê-la e alguns moradores
a retomaram. A princípio todos deveriam cumprir as tarefas porém isto as
vezes não acontece. Todo o processo de construção da ocupação CG é feito
através do convencimento. Em geral nada é forçado ou imposto, é claro que
aquele que não cumpre com suas tarefas ou fere o regulamento é submetido à
avaliação coletiva podendo ser até afastado, algo que raramente acontece
(em sete meses apenas 4 foram afastados, provavelmente um recorde). A
conscientização da luta e da necessidade de destruir o modelo em que
vivemos, para construir a sociedade que sonhamos não pode ser imposta e
necessariamente não irá acontecer da forma que pensamos, cada um tem seu
tempo. As tarefas são distribuídas de acordo com a possibilidade de cada
um. A princípio todos podem se oferecer para qualquer tarefa que se julgue
capaz.
As dificuldades são as mesmas que nos fazem ter certeza da necessidade de
destruição (repito) da sociedade que vivemos. Não existe possibilidade
para o mundo da forma que está. O individualismo, a ganância, a sedução do
capital e o que ele pode adquirir, o culto à aparência e o consumismo
também estão presentes na ocupação, não podemos romantizar, erramos
profundamente quando temos compaixão.
6. Existe um espaço para as crianças da ocupação? Qual a história desse
espaço? Em que condições se encontra e por quê?As crianças foram os primeiros a se organizar internamente, logo arrumaram
uma sala, pintaram, colocaram um quadro e foi onde faziam as auas
reuniões, deram a este espaço o nome de DDC (sala direitos das crianças),
foram um exemplo para os adultos. Infelizmente atualmente se encontra
fechado; foi feito um despejo próximo ao prédio e os pertences dos
despejados foram guardados no quarto das crianças. Vamos fazer uma
campanha para reabrir o espaço.
7. O pessoal do apoio e os moradores podem falar das aulas de
alfabetização, história e capoeira?Não tive tempo para contatar o pessoal.
8. O que e como são as oficinas/discussões de formação política do movimento?
É uma maneira de fazer com que os moradores percebam que a situação que
eles e muitos outros vivem não acontece por acaso, faz parte de um
processo mais amplo de exploração e concentração de riqueza. Como todas as
coisas no processo da Chiquinha nada é obrigatório ou forçado, apenas
estimulamos a participação. Passamos vídeos, trazemos convidados, lemos
textos, enfim provocamos a discussão.
9. Existe alguma espécie de comissão de comunicação ou assessoria de
imprensa no movimento? Vocês são envolvidos em algum projeto de rádio ou
TV livre/comunitária? Há oficinas de produção de mídia?Temos bastante espaço na mídia alternativa como CMI que sempre nos apoiou
e atualmente estamos pensando num informativo da ocupação. Que será aberto
para outras ocupações. Há também a idéia de se fazer uma rádio que a
princípio seria apenas para comunicação interna.
10. De quais outros movimentos sociais vocês são próximos?
A Central de Movimentos Populares-RJ e Frente de Luta Popular são os
movimentos que apóiam a ocupação desde o início. Outros movimentos apóiam
a ocupação também.
11. Há projetos de novas ocupações em andamento (caso possam revelar esse
tipo de informação)?Enquanto existir o problema de moradia em nosso país sempre haverá pessoas
organizando novas ocupações.
12. Como vocês viram a desocupação do terreno Sonho Real, em Goiânia,
ocupado há quase um ano?Como um reforço para nossa luta.
13. Qual a situação atual da ocupação, em termos legais?
Legalmente a situaçao não se alterou em nada; desde o início o processo
continua inalterado. Porém, conseguimos negociar junto ao ministério das
cidades e ao Incra nacional um convênio (temos a cópia) que deve ser
assinado em breve, disponibilizando os imóveis do INCRA para o ministério,
o que a princípio é uma solução para o nosso problema.
14. Como vocês vêem o governo Lula? Podem comentar o que significa para
vocês estar em um prédio do Incra?Dentro do sistema representativo que domina o mundo, qualquer governo
sempre será um governo para as elites, jamais para o povo. Particularmente
na questão urbana, não houve efetivamente avanço nenhum. Mais de dois anos
de governo e até hoje os movimentos de moradia não foram recebidos pelo
presidente. Ocupar um prédio do INCRA chega ser irônico, ocupamos um
Prédio Urbano do órgão que tem como objeitvo fazer a reforma agrária.
15. A ocupação tem qualquer vínculo partidário?
Não. O nosso regulamento proíbe o vínculo partidário da ocupação,
respeitando a opção político-partidária da cada um. Convivem na ocupação
anarquistas, marxistas, punks, pt, psol, pstu tranqüilamente desde que não
queiram tirar proveito ou impor as suas ideologias ao coletivo.
16. Vocês são envolvidos na luta anti-Alca? Como e por quê?
Sim. A ocupação vem participando da luta contra a Alca desde o começo,
participando de seminários, encontros e atos de rua. A ALCA continua sendo
(ainda mais) uma ameaça aos povos da América Latina.
Email:: cmi-floripa-impressos@lists.indymedia.org
URL:: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/01/303898.shtml
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