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(pt) Brasil, Guarulhos: um longo dia...

From Pablo Ortellado <paort@uol.com.br>
Date Mon, 6 Jan 2003 16:01:15 -0500 (EST)


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Um longo dia... e mais uma vez os tratores

Pablo <pablo@riseup.net>

Foi um longo e triste dia para os sem-teto acampados 
em Guarulhos. Depois de expulsos de suas casas, em 
Osasco, por tratores que destruíram todos os seus 
pertences, de móveis a documentos, de roupas a 
mantimentos - depois de tudo isso e depois de serem 
assentados num terreno supostamente legal da 
CDHU (companhia de habitação do estado), eis que 
os tratores, protegidos pela tropa de choque apareceram, 
mais uma vez, nessa manhã. Num período de 
esperança, quando o Brasil vê eleito um presidente de 
esquerda, o PT vai ser o agente da primeira grande 
desocupação do ano.

O longo dia começou muito cedo, na madrugada, quando 
os sem-teto reuniram madeiras, containers e outros 
objetos grandes para fazer uma barricada na entrada 
principal do terreno. O objetivo era segurar o despejo por 
um dia - pois um recurso contra a ação de despejo estava 
em trâmite e seria julgado na terça-feira. Esse despejo, por 
ironia, tinha sido o resultado de uma articulação do prefeito 
de Guarulhos, Elói Pietá, que desde o início não 
gostou de ver milhares de sem-teto sob a sua jurisdição e 
fez de tudo para expulsá-los. Dupla ironia - um prefeito 
que ascendou com o apoio do movimento de moradia... 
e do PT.

Às cinco da manhã a polícia chegou. Soldados da tropa de 
choque e cavalos, muito cavalos, cachorros e um arsenal 
assustador de bombas de gás lacrimogênio e concusão 
(ironicamente chamadas de bombas de "efeito 
moral"). A instrução que o comandante dos cavaleiros 
proferia anunciava o espírito da ação: "Não é pra ter pena 
de velho, de mulher, de ninguém. Quando entrarmos lá, vai 
ser pra valer!", dizia - não para assustar os sem-teto, que 
não estavam ali, mas para animar a tropa.

Enquanto os sem-teto se reuniam na porta principal e 
esperavam ansiosos e temerosos o desfecho desse longo 
dia, lá no alto, do outro lado do acampamento, rojões 
anunciavam uma outra concentração de policiais, dos 
quais um pequeno grupo logo se destacou, invadiu o 
acampamento e agrediu moradores (um rapaz teve o 
braço quebrado). Barricada era um acinte e 
polícia tinha que poder entrar em qualquer lugar e 
não podia ser bloqueada.

Assim, esse grupo de talvez 8 policiais, muito 
mal-encarados, com escudos e bombas, simplesmente 
invadiu o acampamento e passeou até a outra ponta onde 
supostamente iria negociar. O major Fernando, um 
sujeito educado e polido, cercado de policiais de cara 
feia que faziam o jogo do "tira bom"/ "tira 
mau", falou do papel social da polícia, da sua impotência 
("estou apenas cumprindo ordens") e da necessidade de 
negociar, para se evitar uma tragédia, um novo Eldorado 
dos Carajás.

Idas e vindas, negociações com diferentes coordenadores 
e com diferentes policiais - um major, um capitão e um 
tenente que fazia o "tira mau" e, finalmente, é dado um
 ultimato. Dez minutos. A assembléia se reúne. O 
número de acampados já havia diminuído muito - de mais 
de duas mil famílias em Osasco para apenas seiscentas 
em Guarulhos, há mais de 70 quilômetros de distância - 
e, destas, metade tinha fugido, com medo (justificado) da 
polícia. Melhor se retirar de forma pacífica, mas para onde?

É feito um acordo, a polícia não entra, entram apenas os
 caminhões... Dois minutos depois... A polícia pode entrar, 
mas apenas para acompanhar e "proteger" os moradores 
(de quem?). Dois minutos depois... Os tratores não 
entram - apenas podem desfazer as barricadas... Ok, os 
tratores entram, mas apenas para aterrar a parte 
contaminada... Engraçado, a terra contaminada 
não é aqui... Ok, os tratores só derrubarão os barracos 
já desocupados... O que? Não desocupou ainda? Tem dois 
minutos, o trator já está vindo...

E passam-se as horas e centenas de pessoas sentam-se 
na rua ao lado de dezenas de caminhões que levarão seus
 pertences, seus tão poucos pertences 
para algum lugar - e na provavel ausência de lugar, para 
um depósito.

São três da tarde e o dia que começou às três da manhã 
ainda não acabou. E o tempo não passa e nada se define. 
Não parece mais haver esperança. Só medo.

http://www.midiaindependente.org




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